A vaga e a vaga de Zelia Gattai

20 05 2008

A morte não é previsível ou imprevisível, e mesmo quando a pessoa atinge uma certa idade é sempre uma surpresa. Isso se aplica à Zelia Gattai, que morreu no sábado, às 4 e meia da tarde. Ela estava no estágio que os médicos identificam como “terminal”, mas a Academia foi apanhada de surpresa. Além de queridíssima, Zelia Gattai tinha aspectos curiosíssimos de vida. Começou a escrever aos 63 anos, e aí não parou mais, até os 91 registrados anteontem. O que muitos chegaram a chamar de “contaminação” com Jorge Amado, com quem foi casada por 56 anos.

Mas essa tese não se sustenta com segurança, pois conheceu Jorge Amado no famoso Congresso de Escritores de São Paulo, em 1945, organizado pelo Partido Comunista, que reconquistava a Liberdade e a Legalidade. A partir daí, Zelia e Jorge não se separaram jamais, assim como esse Congresso não se separou da história brasileira.

A tristeza e o lamento pela morte de uma acadêmica e amiga queridíssima permanece, mas a Academia e a vida literária seguem seu curso. E é preciso escolher seu substituto. Além do mais, fato pouco conhecido ou registrado, nos 110 anos de existência da Academia, é a primeira vez que não há vaga em 2 anos e 1 mês. Com isso, os candidatos represados durante tanto tempo apareceram, mesmo num sábado para domingo. Já são vários os candidatos que trocaram telefonemas com acadêmicos, telegrama oficial se lançado candidato, só a partir de hoje a Academia estipula 48 horas para essa comunicação.

O primeiro candidato que se lançou sem haver vaga, quebrando uma tradicão da Academia, foi o embaixador Geraldo Holanda Cavalcanti, numa carta a todos os acadêmicos, revelando que reivindicaria a próxima vaga. Isso queimou seus navios, pois naturalmente todos os acadêmicos dizem para si mesmo: “Ele quer a minha vaga”. Quem falou abertamente muito antes da morte de Zelia foi o Millor, numa entrevista que só saiu ontem. A repórter perguntou se aceitaria entrar na Academia, respondeu: “Só se for na cadeira 38″. (Essa cadeira é ocupada por José Sarney, que o Millor critica há 30 anos).

Como faço habitualmente, depois de conversar com um terço dos acadêmicos e com minhas próprias intuição e informação, chego às seguintes conclusões.

1 – O candidato mais forte e de credenciais irrefutáveis é o escritor Afonso Romano de Santana. Já deveria estar na Academia. Eduardo Portela teria a grandeza de não vetá-lo, apesar do episódio histórico.

2 - Ziraldo, fortíssimo, era difícil de derrotar. Só ele poderia obter isso, o que conseguiu num fato inexplicável. Todos lamentavam não poder votar nele.

3 - Luiz Paulo Horta, credenciado, respeitado e muito falado.

4 - O presidente do PEN Clube, Claudio Leal, muito lembrado, pois vários acadêmicos vieram de lá.

5 – Como a vaga aberta ocorre com a morte de uma mulher, muitos defendem a eleição de outra mulher. A mais citada: Maria Beltrão, por todos os títulos e que já teve duas vezes 16 votos, não se elegendo por acidentes de percuso.

6 - Vilma Guimarães Rosa e Rosiska Darcy de Oliveira têm poucos votos cativos.

7 – Num domingo em que muita gente está fora, acho que não deixei ninguém de fora. A não ser que surja um nome que sempre recusou a honraria.

PS - Apenas duas hipóteses para reforçar essa idéia: se Oscar Niemeyer e o Veríssimo (que já recusaram a vaga várias vezes) decidissem se candidatar. Como isso não acontecerá, fica apenas como uma vaga idéia.

Hélio Fernandes

Fonte: Tribuna da Imprensa