Continuação da série Bernard Shaw em Santa Joana em 4 partes. Com vocês, Joana Soldado:
JOANA SOLDADO
Por Andreína Vieira
A primeira cena já mostra a aldeã Joana em terras de Roberto Baudricourt decidida a conversar com o capitão e pedir-lhe soldados para acompanhá-la até o Delfim, pretende levar-lhe o anúncio de suas vozes: deverá bater Orléans, nomear Carlos rei da França, pôr fim a Guerra dos Cem Anos, expulsar os ingleses de zonas onde predominam pessoas de língua francesa. Surreais intenções quando expostas a um homem menos interessado nas questões estadistas e mais apto no cálculo de suas riquezas, algumas acumuladas através de atos corruptos nas guerras. As personagens conhecidas pela protagonista neste momento primordial são pontes ou presságios das que virão a contracenar até a hora de sua morte.
Conseguindo o necessário à viagem, segue rumo ao Delfim. É o desenrolar da segunda cena, estratégica, pois, comporta personas-chave na peça. Carlos, o Delfim, conhecerá a mulher mais importante de sua vida política, todavia seu caráter mesquinho, demasiado medroso, oportunista, pouco afeito a grandes especulações e estratagemas, jamais terá o dom de reconhecer na figura de Joana sua fiel escudeira, nunca poderá imaginá-la sem concebê-la louca ou incômoda. Compartilham tamanho temor e ignorância sobre o espírito joanino o Barba-Azul e La Hire, nobres diferentes do delfim apenas pela coragem expressa num universo militarista, mas muito mais dedicados aos seus feudos e fortunas que a um conceito ainda por se construir de pátria.
Espectros da política medieval, comportam-se consonantes a teia social da época. Emaranhado não compreendido pela jovem, ela sequer ouvia de suas santas o quanto a esfera na qual intencionava penetrar era orquestra regida por homens, subdividida em susseranos e vassalos, sob uma ideologia musicada pelos membros eclesiásticos.
A Igreja já se faz presente neste ato, demonstra sua posição no jogo através do Arcebispo. O Deus dela é teórico, habita prédios (mosteiros, catedrais, capelas), tem existência proclamada em palavras impressas num livro, possui intermediários estudiosos, formados e polidos. Este deus escapa ao pragmatismo popular, origens da jovem camponesa, não habita a alma do iletrado, e pouco se faz vivo na casa do pobre trabalhador.
Por que confiam a uma mulher vestida de trajes masculinos um exército e uma luta, perante todas estas circunstâncias? Por que não a classificaram de imediato como feiticeira ou sublevada, não a surraram ou mal trataram sob pena de não cair mais em tamanhos incidentes? O ser humano independente de suas formações tem crenças, os nobres e cátedras franceses encontraram naquela moça a concretude da esperança e coragem apenas imagética. Nada tinham a perder caso Joana errasse, tentariam seguir o conselho de suas vozes, pois apesar de sobrenaturais carregavam o racionalismo ainda não ousado pelos militares envolvidos no conflito. Seria uma coroa, terras, poder, enfim desejos de superioridade despertado em seres já cansados e desesperançosos diante os resultados fatídicos.
Ela não era uma qualquer, tinha impetuosidade, braveza superior a dos homens de seu tempo e lugar. Conquistou a todos pela coragem e decisão, sua força era bruta. Exímia na espada e escudo, Joana obteve vitória em Orléans. Foi seu racional militarismo revestido de vozes o responsável pela nomeação de Carlos, antigo delfim.
A batalha de Orléans trouxe muitos outros legados. Joana obteve reconhecimento, principalmente, pelo povo, era a Donzela. A virgem pura e desbravadora, salvadora dos martírios. Seu sucesso na batalha não foi bem quisto por Dunois, comandante das tropas antes de sua vinda, e personagens acima citados. A fama ocasionada já não era bem quista, Dunois como homem e oficial militar viu-se ofuscado; os nobres apesar do desejo de guerra sentiram-se ameaçados com a presença de uma liderança feminina; o Arcebispo viu os valores da Igreja serem sucumbidos pela jovem. O masculino e institucional suportou em demasia uma mulher em comando, obtiveram os ganhos por ela prometidos, mas não admitiam o ímpeto e vaidade de seu ser. Deveriam-na afastar de bom ou mal grado, a máquina não operaria qualitativamente com o feminino na esfera do poder. Cada um guardava universais temores dissimulados sob particulares mágoas nas ações, palavras, vozes, aspirações da casta Donzela.
Entre a cruz e a espada encontrava-se a protagonista, os franceses seus aliados viram-na ameaçadora, visto a personalidade de liderança, os ingleses seus reais inimigos em combate, não atinavam com medos semelhantes aos comparsas joaninos, visualizam nela algo maior: era Joana perigosa para o modo de produção feudal, estavam, devido sua presença, em risco de desmoronar o regime de susserania e vassalagem, os nobres em muito perderiam e os reis seriam absolutistas no poder político, porque ela assumia, apesar de não conhecer, o nacionalismo nas suas aspirações divinas. É Warwick quem transmite tal pensamento, nobre inglês, decide perseguir a moça defendendo os princípios medievos da nobreza. Apenas ele e Cauchon, bispo encarregado de julgá-la, observam na figura da inocente camponesa características nem imaginadas por ela mesma: nacionalismo e protestantismo. O pessoal não interfere no fato de perseguirem-na, e sim, o geral pautado no risco das estruturas nas quais se apóiam serem violadas gravemente.
Próxima parte: Joana, a Feiticeira.
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