Continuação da série Bernard Shaw em Santa Joana em 4 partes. Publicamos Joana Soldado, e agora Joana Feiticeira:
JOANA FEITICEIRA
Por Andreína Vieira
A natureza feminina é mistério para um mundo governado pelo ser macho. Muitas mulheres foram queimadas na Idade Média, antes desta prática horrenda já se sacrificavam jovens na Antiguidade, no contexto contemporâneo, a violência contra a mulher é assombrosa. Joana foi à fogueira acompanhando várias outras fêmeas denominadas bruxas, mas difere bastante delas, pois, esta moça que virou soldado seria exterminada quantas vezes nascesse e nas mais diversas épocas. Não apenas por ter sido mulher e ousar trajar-se de roupas inadequadas ou simplesmente ouvir vozes celestes, ela era ideóloga da equidade, não a satisfazia o sistema político-social o qual estava imersa. Joana era revolucionaria e nenhum tempo histórico abriga impetuosos revolucionários. Seria ela fuzilada, prisioneira, perseguida, processada, nunca livre pensante, sempre livre errante no emaranhado sistema.
A camponesa não entendia o jogo político cada vez mais cerceador, não soube se envolver neste jogo e usar a paciência ou talvez até sedução feminina a seu favor. Vivia a práxis impensada, queria liberdade de idolatrar seu Deus, queria agir consonante a suas vozes e a ninguém além delas ouvia. Tinha um objetivo, um ideal, e nunca o largaria.
A Igreja a culpava de herege, seus juízes, principalmente, Cauchon não lhe foram corruptos ou iníquos, julgaram-na como interpretava a Inquisição os casos de heresia. Poderiam tê-la salvado da morte se viesse a proclamar seus pecados e se submetesse a uma solidão purificadora, distante da vida mundana. Ora, a Donzela nascera a respirar os ventos campônios, sua personalidade era de ferro e enferrujaria nos escuros porões legados aos prisioneiros católicos. Preferia o fogo à sarjeta. E para os eclesiásticos católicos um ser independente das rígidas doutrinas hierarquizadas da “Santa Mãe Igreja” não poderia viver em harmonia com aqueles aos seus valores obedientes.
Eis outro furacão provocado pela persona da jovem. Inocente de seus atos, não imaginava que seu Deus era concorrente do Deus da mesma Igreja também amada no seu coração. Era herege, assim o tribunal católico a qualificou. Cauchon personifica toda a indecisão da Instituição religiosa ao ter de punir uma alma jovem e pura, mas era preciso, havia algo no momento mais valoroso em questão.
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