Ri-di-chulus XV: Um país sem memórias

31 08 2008

Memória do Brasil ameaçada

Símbolo de uma geração, o cinema Paissandu encerrará suas atividades por falta de patrocínio

Um melancólico fim se anuncia para um dos maiores símbolos da geração de jovens dos anos 60. Nesse conturbado período -regime militar, a partir de 64 – o Cinema Paissandu foi um importante recanto para a juventude brasileira. Não apenas por conta das sessões, mas pela formação de um círculo de influências e amizades. A ameaça de seu fechamento, neste fim de semana, trouxe inquietação àqueles que viveram a euforia da “intelectualidade” do Paissandu, mas também aos amantes de cinema em geral.

Seguramente um marco da contracultura brasileira, o Cine exibia trabalhos de cineastas autorais, entre eles Jean-Luc Godard, Louis Malle, Michelangelo Antonioni e François Truffaut. Seu público incluía alguns nomes que viriam a ser referências no Brasil como Glauber Rocha – pai do Cinema Novo – Cacá Diegues e Arnaldo Jabor.

A origem de alguns dos freqüentadores se traduz na expressão utilizada, inteligentemente, pelo jornalista Ruy Castro – “os suspeitos de sempre”. Dentre eles encontravam-se estudantes da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), na Esplanada do Castelo. Grande parte deles pertencente aos cursos de Ciências Sociais, Jornalismo, História e Letras, inclusive militantes visados pela polícia política da ditadura.

Fonte: Tribuna da Impensa

Comentário: os cinemas, hoje inexistentes mediante o poderio digestivo-obscurante dos shoppings e multiplex da vida, e sobretudo seus cinéfilos ficam de luto, resguardados sentadinhos em suas cadeiras de digitador onde esperam horas baixando os filmes com que o Cine Paissandu, dentre muitos outros, forjaram com sessões que varavam a noite os olhos de nossa intelectualidade mais esclarecida. Afinal de contas, é justamente a parte da sociedade descrita na matéria (estudantes de Jornalismo, Ciências Sociais, História e Letras) que menos interessa à memória dos governantes e seus iguais.





Santa Joana, Bernard Shaw

31 08 2008

Continuação da série Bernard Shaw em Santa Joana em 4 partes. Publicamos Joana Soldado, Joana Feiticeira e, por fim, Santa Joana:

SANTA JOANA

Por Andreína Vieira

O curioso epílogo foge de toda estrutura realista da peça até a cena VI. Já se passaram vinte e cinco anos desde a condenação de Joana à fogueira; a antiga herege, agora tem as acusações a seu respeito perdoadas perante o Papa e a Igreja Apostólica Romana. Seus juízes, não mais vivos, são excomungados e acusados de corruptos. Shaw esquematiza todas as personagens que sofreram a presença ou interferência de Joana nas suas vidas em cena, são espíritos mortos e vivos apresentados num sonho de Carlos, antigo Delfim. Eles saúdam Joana pela sua conquista, admiram sua personalidade guerreira e se desculpam por algum transtorno a ela causado.

Não há como eles esconderem a admiração profunda sentida pelas atitudes da moça, mas este mesmo sentimento é embaraçado à incompreensão de saber conviver ao lado dela. Joana perdoada pelos eclesiásticos católicos também será séculos depois considerada santa. O autor faz deste epílogo algo surreal, faz estranhos tempos se confrontarem e deixarem evidente a protagonista o quanto ela é bem quista estando morta, assim pode ser adorada, ter honras e saudações. Viva, independente, da época seja o século quinze ou vinte, mesmo outorgada santa será incômoda, pois suas atitudes permanecerão de um ser visionário e revolucionário. Nenhum tempo comporta Joana ou seres a ela semelhantes sejam eles Che Guevara, Gandhi, Lênin, Conselheiro ou Beato Lourenço. As mega instituições precisam destas grandes personalidades caladas, mortas em corpo e lembranças vivas nos livros, memórias do povo, na história ou no extremo de virarem produtos comercializados nas canecas e camisetas, numa época distante de George Bernard Shaw, mas próxima de nós.

E como o disse Shaw através de sua personagem:

Ó Deus, que fizeste esta bela Terra, quando estará ela preparada para receber os Teus santos? Quando, ó Senhor, quando?

Santa Joana é um grito, de dor e indignação, pois tivemos revoluções na técnica, na filosofia, ciência, artes, mas as ações de toda uma massa social (incluindo opressores e oprimidos) permanecem vazias de significado maior: o valor humano, sua liberdade de expressar-se como indivíduo dotado de determinados saberes. Mas o grito é de esperança, também, pois joanas irão nascer enquanto não existir liberdade e mudanças tiverem de ser feitas no âmago de uma dada estrutura política, cultural ou humana. Porque um ideal estranho não deve despertar medo, sobretudo, desejos de amalgamar, compreender ou perpetuar.

Joaseiro.com





Reduza o Uso de Plástico

31 08 2008

Joaseiro.com