Memória do Brasil ameaçada
Símbolo de uma geração, o cinema Paissandu encerrará suas atividades por falta de patrocínio
Um melancólico fim se anuncia para um dos maiores símbolos da geração de jovens dos anos 60. Nesse conturbado período -regime militar, a partir de 64 – o Cinema Paissandu foi um importante recanto para a juventude brasileira. Não apenas por conta das sessões, mas pela formação de um círculo de influências e amizades. A ameaça de seu fechamento, neste fim de semana, trouxe inquietação àqueles que viveram a euforia da “intelectualidade” do Paissandu, mas também aos amantes de cinema em geral.
Seguramente um marco da contracultura brasileira, o Cine exibia trabalhos de cineastas autorais, entre eles Jean-Luc Godard, Louis Malle, Michelangelo Antonioni e François Truffaut. Seu público incluía alguns nomes que viriam a ser referências no Brasil como Glauber Rocha – pai do Cinema Novo – Cacá Diegues e Arnaldo Jabor.
A origem de alguns dos freqüentadores se traduz na expressão utilizada, inteligentemente, pelo jornalista Ruy Castro – “os suspeitos de sempre”. Dentre eles encontravam-se estudantes da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), na Esplanada do Castelo. Grande parte deles pertencente aos cursos de Ciências Sociais, Jornalismo, História e Letras, inclusive militantes visados pela polícia política da ditadura.
Fonte: Tribuna da Impensa
Comentário: os cinemas, hoje inexistentes mediante o poderio digestivo-obscurante dos shoppings e multiplex da vida, e sobretudo seus cinéfilos ficam de luto, resguardados sentadinhos em suas cadeiras de digitador onde esperam horas baixando os filmes com que o Cine Paissandu, dentre muitos outros, forjaram com sessões que varavam a noite os olhos de nossa intelectualidade mais esclarecida. Afinal de contas, é justamente a parte da sociedade descrita na matéria (estudantes de Jornalismo, Ciências Sociais, História e Letras) que menos interessa à memória dos governantes e seus iguais.
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