Mal curamos a ressaca da virada e já tem gente por ai a bufar a velha sentença: ´Como o ano está passando rápido!´. Tem gente que diz isso a cada folhinha do calendário. ´Já já é carnaval, Nossa Senhora´, estrebucha o infalível Homem do Tempo com a sua trombeta diária.
Ainda no sábado de Zé Pereira, quando mal tem saído o Galo da Madrugada, o representante do deus Cronos na terra, sempre à frente da sua época, solta bombas caseiras e anuncia as festas juninas. Mal pula as brasas da fogueira, decreta, com ares de sábio: ´Já já é Natal, esse ano correu como nunca´.
Apressado, assina mais um cheque, repare que ainda estamos em pleno mês dos desgostos, e o mal-assombrado Homem do Tempo mira a data e toca o terror de novo: ´Bem que eu avisei, 2010 chegou voando´.
O Homem do Tempo, esse infeliz das costas-ocas, esse vampiro das horas é capaz de matar de susto qualquer criatura temente à Velha da Foice. (…) Sim, amigos, a triste figura é perversa, um carrasco sem guilhotina, e adora tocar a sua trombeta justamente onde estão os mais idosos.
´Quem diria, já chegou de novo a Copa do Mundo´, alardeia com a antecedência mortal de sempre. ´Vamos ver quem tem garantia de vida até a próxima´, cutuca o belzebu, mais uma vez, com o seu pobre chiste publicitário.
O mais cruel Homem do Tempo que conheço, tão cruel que parece personagem de programa humorístico, é o meu ´padrinho de fogueira´ Antonio Carneiro, habitante de Santana do Cariri, na região sul cearense (…)
Além do avexamento de praxe dos homens do agouro, ele é mestre em comentar as rugas e outros maltratos que fazem residência em nossos pobres rostos. A saudação mais leve que apresenta a um velho conhecido, depois de meses de ausência, é mais ou menos assim: ´Amigo, você está acabado, derrotado pelo relógio, tem gente a quem o tempo nem dá bom dia, não respeita mesmo´.
Pode ser homem, pode ser mulher, independentemente da idade e do natural e belo estrago da vida. Ninguém escapa.
Xico Sá – Jornalista
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