Caso ZH

3 05 2009

Recife, 29 de abril de 2009

A imponência econômica contra a natureza real

Por Guilherme Patriota

                ZH era um típico político do sertão nordestino que havia perdido seu curral eleitoral, mas que tinha tido tempo suficiente para conquistar recursos escusos que realizaram um sonho da maioria dos sertanejos: morar na Avenida Boa Viagem, de frente para o mar, da capital pernambucana Recife. Peculiarmente, ZH e sua esposa B adoravam entrar no mar às 16hs, diariamente, para transar, transformando aquele ato tão comum para qualquer casal em um ato teatral para vários adolescentes que sempre freqüentavam aquela mesma praia naquele mesmo horário. Diariamente, assim como ZH e B, vários, e cada vez mais vários, jovens se juntavam às 16hs, convidados por panfletos vocais que passavam de adolescentes para adolescentes, para entrarem no mar e assistirem aquele espetáculo erótico que, com certeza, não era indicado para menores de dezoito anos. ZH e B, com seu fetiche molhado e salgado, não se apercebiam que eram observados diariamente, e apenas comentavam, ao sair do mar, que o número de jovens que freqüentavam a sua área de banho estava sempre aumentando, contrariando as indicações de periculosidade inseridas diariamente nos jornais da cidade quanto aos banhos de mar naquela região. A notícia se espalhara por toda zona sul, atraindo diversos observadores. Ambulantes, que anteriormente apenas vendiam cervejas, água de coco e churrasquinho, agora também alugavam binóculos e lunetas que possibilitavam uma melhor visão do espetáculo, fazendo aumentar a renda familiar dos menos favorecidos que moravam nas diversas favelas que circulam o bairro de Boa Viagem. Outros jovens, mais sofisticados e interligados com a modernidade digital, levavam suas câmeras de alto alcance para registrarem o ato e para postarem aquela aventura na internet, gerando uma cadeia de comunicação internacional, trazendo outra vez ZH para mídia, só que desta vez não como político corrupto, mas como senhor de idade que realiza atos sexuais com sua companheira, diariamente, na praia de Boa Viagem. O fato tomou uma dimensão impressionante, e agora ZH e B eram celebridades internacionais, eram cumprimentados nas ruas, eram observados por outros senhores de sua geração como heróis e muito mais como indecentes, mas, na verdade, não sabiam por que – até imaginavam que isto se dava pela popularidade alcançada por seu filho, que era dono de uma rede de lanchonetes, e que não tinha tempo de fazer outra coisa que não fosse trabalhar para crescer seu negócio, perdendo assim a possibilidade de assistir ao espetáculo mais comentado na cidade de Recife.  A sociedade tradicional nordestina começava a se indignar com aquele fato, e autoridades mais conservadoras resolveram efetivar um flagrante de atentado ao pudor, afirmando que suas crianças não poderiam ir à praia normalmente e assistirem a um ato tão indecente de forma tão aberta. Reuniram imagens da internet, coletaram depoimentos de observadores comuns, acionaram a policia e a imprensa e marcaram a realização do flagrante para uma terça-feira, sempre no mesmo horário. ZH e B, alheios ao mundo digital, e mais preocupados com sua própria vida, saíram de casa no mesmo horário, com o mesmo destino e com a mesma sensação. Observaram que a maré estava cheia, adentraram no mar e deram continuidade a sua rotina, que era teatral para muitos, e que agora se tornara criminosa para outros. Neste momento estavam a postos vários observadores, como de comum, a polícia, a representação do juizado, a imprensa e salva-vidas, mas ninguém imaginava que outra coisa que não fosse aquela prisão em flagrante pudesse acontecer com o sentido de questionar a sociedade pernambucana. De repente, antes de todos poderem prender o casal que insultava a dignidade social com a prática de sexo em público, observou-se o desespero de B, que acenava bruscamente para todos, gritando e implorando que alguém viesse ajudá-la. B segurava ZH nos braços, e sua agonia era tanta que os observadores perceberam que algo de anormal acontecia naquele instante e naquele local, adentrando vários ao mar na tentativa solidária de ajudar aquele casal. Os primeiros a chegar, observaram que ZH sangrava e B logo afirmou que seu marido havia sido atacado por um tubarão – o bicho tinha trucidado o pênis do pobre homem. O desespero se estendeu a todos, e aquela mesma corrente que informava que um casal transava diariamente na praia agora informava a todos sobre um novo ataque de tubarão. A polícia, os salva-vidas e a imprensa, preocupados com a moral de uma sociedade, e que estavam ali para flagrar um ato inadequado de conduta social, acabaram por flagrar um ato ainda mais inadequado e que é deixado de lado diariamente. Depois do socorro de ZH, B tornou-se mais uma vez celebridade, adentrando a casa de todo um país através dos telejornais, dando o seguinte depoimento: “- O Pênis do meu marido era igual ao porto de Suape, majestoso, imponente, mas despreparado para a cadeia alimentar dos tubarões que residem no litoral pernambucano.”

Joaseiro.com


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Uma resposta

3 05 2009
Franzé Matos

Achei massa o texto. Desenvolve um enredo que muitas vezes pode parecer nornal do dia-a-dia, mas que implicitamente desenvolve sérios questionamentos. Ecologia, poder, sexo, crítica social. Achei massa de dizer o que pensa de forma mais sutil e contextualizada… Continue os trabalhos cara e sorte no tempo que se aproxima.

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