São José do Belmonte, 29 de maio de 2009.
Um desejo próprio para todos
Na pequena São José do Belmonte, sertão central de Pernambuco, o poder e o machismo ainda predominavam em pleno século XXI. Neste tempo e espaço, a jovem E lutava contra tudo e contra todos com o sentido de realizar seus sentidos e trilhar um futuro diferente para sua vida, alertando sua própria sociedade quanto aos direitos de todos em escolher seus próprios caminhos. E era filha de pais pobres, que não tinham como criá-la, e morava com seus avós, que apesar da idade tinham uma ligação de criação mais livre para com seus filhos e netos. Com o apoio dos avós, E estudou e sonhou em alcançar a universidade, no entanto todos naquela cercania cobravam da menina uma postura que a direcionasse para ser uma verdadeira mulher, que lá era se casar cedo, ter filhos e tomar conta da casa. A cobrança para E era enorme, ela sofria um isolamento social que a distanciava de todos e começara a criar em sua própria mente, e nas conseqüentes ações, meios de burlar os fatos deste cenário real e empreender seu vôo pelas avenidas da universidade. Demonstrando a todos o desejo de realizar os sonhos de seu povo, E prometeu que iria se casar com H, comerciante de objetos escusos naquela região, mas para isso teria que começar a montar seu próprio enxoval que só se tornaria possível através de seus próprios recursos, dada a situação social de sua família. E foi contratada pela prefeitura para dar aulas de literatura em escolas da zona rural e para recepcionar visitantes que adentravam o Memorial da Pedra do Reino, E tinha um ano para adquirir recursos e corresponder aos desejos que vinham de fora para dentro ou para fazer voar seus desejos que vinham de dentro para fora. Passado o período, E, agora economicamente viável, resolveu que não iria se casar, mas sim patrocinar seu tão desejado intuito de ser uma graduada em letras na cidade de Serra Talhada. Fez o vestibular e adentrou pela primeira vez no campus como uma graduanda, no entanto todos os que puderam prejudicá-la naquela cidade assim o fizeram. Primeiro o prefeito proibiu E de pegar o transporte público noturno que levava os estudantes, 80% homens e 20% mulheres, na sua maioria filhas de grandes comerciantes daquela cidade, para a cidade vizinha, e depois demitiu a jovem dos dois empregos. E insistiu o quanto pôde, mas um acidente no caminhão, transporte ilegal, porém sempre usado naquela região, que a levava para as aulas, fez com que seu dinheiro fosse gasto por completo na recuperação de sua própria vida, trazendo de volta o sentido anterior do casamento e o definhar de seu verdadeiro destino. E, convencida de que ela era o problema, resolveu aceitar seu destino traçado pelos outros e convenceu-se do casamento, mas ainda imaginando que iria convencer seu futuro marido, que tinha posses, mesmo questionáveis, mas posses, a deixá-la concluir os estudos. Casaram-se, e E adentrou em um novo mundo, um mundo de sofrimentos para seu espírito livre, pois seu marido transformou-se em um carrasco dos seus desejos, bloqueando tudo quanto podia no sentido de ele mesmo guiar o caminho da jovem. E agora era uma participante social, isolada psicologicamente de tudo e de todos. Um ano após o casamento, H saia de um bar e foi alvejado por três tiros a queima roupa disparados por um desconhecido, deixando E como única herdeira de uma pequena fortuna de um milhão de reais. Dois anos depois do fato, inaugurava-se naquela cidade a primeira faculdade, que dava acesso gratuito a meninas de baixa renda que obtivessem notas suficientes em sua seleção. Graduada, calejada e com autoestima recuperada E inaugurou seu empreendimento dizendo as seguintes palavras: “- Mais forte que o desejo de homens ou mulheres é o desejo dos sentidos de realização do todo. A partir de um desejo meu, e próprio, que foi motivo de chacota e discriminação de todos que agora matriculam seus filhos em meu estabelecimento, foi possível realizar o grande desejo de uma sociedade: amadurecer seus próprios sentidos e relacionamentos.”
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