Conto da Semana

31 05 2009

São José do Belmonte, 29 de maio de 2009.

 

Um desejo próprio para todos

Por Guilherme Patriota

            Na pequena São José do Belmonte, sertão central de Pernambuco, o poder e o machismo ainda predominavam em pleno século XXI. Neste tempo e espaço, a jovem E lutava contra tudo e contra todos com o sentido de realizar seus sentidos e trilhar um futuro diferente para sua vida, alertando sua própria sociedade quanto aos direitos de todos em escolher seus próprios caminhos. E era filha de pais pobres, que não tinham como criá-la, e morava com seus avós, que apesar da idade tinham uma ligação de criação mais livre para com seus filhos e netos. Com o apoio dos avós, E estudou e sonhou em alcançar a universidade, no entanto todos naquela cercania cobravam da menina uma postura que a direcionasse para ser uma verdadeira mulher, que lá era se casar cedo, ter filhos e tomar conta da casa. A cobrança para E era enorme, ela sofria um isolamento social que a distanciava de todos e começara a criar em sua própria mente, e nas conseqüentes ações, meios de burlar os fatos deste cenário real e empreender seu vôo pelas avenidas da universidade. Demonstrando a todos o desejo de realizar os sonhos de seu povo, E prometeu que iria se casar com H, comerciante de objetos escusos naquela região, mas para isso teria que começar a montar seu próprio enxoval que só se tornaria possível através de seus próprios recursos, dada a situação social de sua família. E foi contratada pela prefeitura para dar aulas de literatura em escolas da zona rural e para recepcionar visitantes que adentravam o Memorial da Pedra do Reino, E tinha um ano para adquirir recursos e corresponder aos desejos que vinham de fora para dentro ou para fazer voar seus desejos que vinham de dentro para fora. Passado o período, E, agora economicamente viável, resolveu que não iria se casar, mas sim patrocinar seu tão desejado intuito de ser uma graduada em letras na cidade de Serra Talhada. Fez o vestibular e adentrou pela primeira vez no campus como uma graduanda, no entanto todos os que puderam prejudicá-la naquela cidade assim o fizeram. Primeiro o prefeito proibiu E de pegar o transporte público noturno que levava os estudantes, 80% homens e 20% mulheres, na sua maioria filhas de grandes comerciantes daquela cidade, para a cidade vizinha, e depois demitiu a jovem dos dois empregos. E insistiu o quanto pôde, mas um acidente no caminhão, transporte ilegal, porém sempre usado naquela região, que a levava para as aulas, fez com que seu dinheiro fosse gasto por completo na recuperação de sua própria vida, trazendo de volta o sentido anterior do casamento e o definhar de seu verdadeiro destino. E, convencida de que ela era o problema, resolveu aceitar seu destino traçado pelos outros e convenceu-se do casamento, mas ainda imaginando que iria convencer seu futuro marido, que tinha posses, mesmo questionáveis, mas posses, a deixá-la concluir os estudos. Casaram-se, e E adentrou em um novo mundo, um mundo de sofrimentos para seu espírito livre, pois seu marido transformou-se em um carrasco dos seus desejos, bloqueando tudo quanto podia no sentido de ele mesmo guiar o caminho da jovem. E agora era uma participante social, isolada psicologicamente de tudo e de todos. Um ano após o casamento, H saia de um bar e foi alvejado por três tiros a queima roupa disparados por um desconhecido, deixando E como única herdeira de uma pequena fortuna de um milhão de reais. Dois anos depois do fato, inaugurava-se naquela cidade a primeira faculdade, que dava acesso gratuito a meninas de baixa renda que obtivessem notas suficientes em sua seleção. Graduada, calejada e com autoestima recuperada E inaugurou seu empreendimento dizendo as seguintes palavras: “- Mais forte que o desejo de homens ou mulheres é o desejo dos sentidos de realização do todo. A partir de um desejo meu, e próprio, que foi motivo de chacota e discriminação de todos que agora matriculam seus filhos em meu estabelecimento, foi possível realizar o grande desejo de uma sociedade: amadurecer seus próprios sentidos e relacionamentos.”

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III Aniversário do CCBNB Cariri

31 05 2009

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