Recife, 26 de junho de 2009
“Para o homem que possui o conhecimento, não existe dever… E, para dizer ainda como conclusão o que dizia ao começar: o homem prefere ainda querer o nada antes que nada querer.”
(Nietzsche)
Buscando, de forma lúdica e brusca, uma nova visão para a humanidade
Por Guilherme Patriota
No mundo da banalidade, MJ apenas sobrevivia. Ele tornara-se, desde criança, o maior pensador de seu tempo, e havia vendido cem milhões de cópias de seus livros quando adulto. Sua personalidade absurda era destaque em tudo, pois conseguia refletir para si os fatos, as vivências e as preponderações de seu tempo sem se perder na história da humanidade. MJ havia se isolado desde os vinte e cinco anos de idade, pois sua forma de pensar já não era o mais importante, dado que a mídia, como que buscando copiar suas formas de agir para gerar outros seres iguais, procurava descrever cada ato de sua vida conturbada, invadindo os limites de convivência particular e atirando as facetas humanas de um, aparente, não humano nas capas de todas as revistas, jornais, blogs e programas televisivos de todo o mundo, no cativar de uma ganância exploratória de geração capital a procura do inevitável banal. MJ, em todos os seus escritos, afirmava que a coletividade individualizada e sadiamente natural tornar-se-ia o fator de modificação de sua sociedade, porém no seu convívio isto se tornara impotente, pois seu isolamento, por sua genialidade banalizada, fazia dele um ser apenas individual, isolado, caricaturado como o deus que pensa e que deve ser seguido. MJ tentava, em vão, se aproximar dos outros, mas sempre era idolatrado, tratado de forma diferente, como algo inalcançável, deverasmente afastado da coletividade humana. Ele resolveu partir sem rumo, porém sua fama avançara por todo o globo e não tinha mais como se isolar em um pequeno grupo de respeito mútuo. MJ parara de escrever, sua busca limitava-se ao encontrar alguma comunidade que o distinguisse por inteiro, como pares que não considerassem seus escritos e teorias como algo fora do normal, para que pudesse trazer seu estado humano de volta ao seu corpo, a sua mente. Quatro anos “perdidos”, e MJ encontrou relato de um grupo cambojano, na internet, na mídia que tanto o incomodava, que praticava um tipo de liberdade limitada que postava a igualdade absoluta dos semelhantes em detrimento de sua própria existência, de seu corpo, não passando a forma de pensar como absoluta, mas sim a carne, a naturalidade da vida animalesca como o principio de paridade. MJ não acreditava friamente neste sentido, no entanto via neste intuito uma forma de compartilhar suas buscas, de poder atingir um novo principio que há tempos era-lhe negado: ser novamente humano. MJ partiu, cego, surdo e mudo, para o Camboja. Sua nova revolução era uma busca que não poderia ser apenas a mesma, aquela que o conduzira para um patamar de gênio, de superior, de o fora de contexto, ele desejava retornar, retroceder, se fosse o caso, a um estágio de visão colonialista primitiva. MJ queria ser doutrinado, queria ser um mártir de sua espécie, com o simples intuito de ajudar a todos os seus irmãos no sentido de não ser alguém que ele havia se tornado. Em quatro anos de doutrina cambojana e de desaparecimento total, MJ resolveu reaparecer com um novo livro, que duas semanas depois era chamado de a nova bíblia, mesmo sem ter sido lançado ou lido. MJ, se utilizando de sua posição de ídolo, decidiu que seu livro seria publicado por uma editora cambojana, da comunidade a qual agora fazia parte, e que teria uma edição absolutamente limitada ao número de lideres mundiais que faziam parte do conselho de segurança da ONU, e que seu lançamento deveria ser feito, única e exclusivamente, no quando da próxima reunião de tal conselho. Obviamente, apoiado por um consenso mundial, nenhum empecilho foi lhe criado, pois, apesar do desaparecimento, MJ era o grande pensador, o grande conselheiro dos conselheiros, o que havia gerado um sentido de comunhão entre os homens em seus escritos. MJ editou 16 livros, um para cada um dos cinco membros permanentes do conselho, representados pelos seus presidentes (USA, França, Reino Unido, Rússia e China), um para cada um dos dez membros rotativos do mesmo, também representados pelos governantes dos países em representação, e um para ele mesmo, que fazia questão de realizar a primeira leitura. O livro era daqueles que ficavam de pé, na vertical, e aparentava possuir o conhecimento dos conhecimentos, dada a personalidade histórica e única de MJ. No dia do lançamento, MJ fez questão de convidar, pessoalmente, os maiores membros da imprensa mundial, que deveriam ser representados não por seus jornalistas, mas pelos próprios proprietários dos veículos que, acreditando ser um grande privilégio, compareceram em massa, sem faltas, mesmo sabendo que não teriam o direito ao livro tão desejado. Reunidas cinqüenta e cinco pessoas, entre lideres mundiais e “donos do que se vê no mundo”, na sede da ONU, MJ Chegou e distribuiu os livros, afirmando que nenhum deveria ser aberto antes que o mesmo autorizasse e que todos deveriam seguir seus procedimentos se não quisessem gerar uma grande catástrofe. Os líderes, atentos aos dizeres de seu “adestrador/pensador”, seguiram os passos necessários, e MJ pediu-lhes que observassem apenas a capa e que depois, sutilmente, abrissem a primeira página sem ultrapassá-la de forma alguma. Na capa nada existia, apenas o branco, que, para os mais atentos e orientais/orientados, significava o luto da humanidade exposta em sua alma de pensador. No prefácio, única e primeira página escrita, MJ afirmava que para concretizar sua humanidade todos os homens, inclusive ele, deveriam descobrir o grande segredo, que só poderia ser revelado pela própria curiosidade de todos os leitores, e que este segredo mudaria, ao menos em principio, todas as suas vidas pessoais e, quem sabe, posteriormente, a vida de todo o mundo. Ainda, ele afirmava que esta mudança era de escolha, e para realizar esta escolha todos deveriam mudar de página, mudança esta, que como nos grandes livros, que são optativos na relação de ler ou não ler a próxima página, deveriam ter direção própria. Como em uma decisão do conselho de segurança, MJ sugeriu uma votação que promovesse a unanimidade ou não daquela abertura, reafirmando que a leitura da próxima página poderia mudar, realmente, a vida de todos, promovendo a grande mudança de suas humanidades. Intrigados pelo sentido de conhecer e deter o grande segredo da humanidade, os cinco membros permanentes, seguidos por todos os outros ali presentes, resolveram, sem votos contra, abrir a próxima página que revelaria o grande segredo filosófico humano. Decidida a questão, MJ pediu concentração para o adentrar da nova realidade e sugeriu que todos fizessem um contagem regressiva do dez ao zero, como nos lançamentos de foguetes da NASA, abrindo, simultaneamente, a segunda página, todos aos mesmo tempo. Ao chegar ao zero, ouviu-se uma grande explosão. A página dois do livro branco do luto de MJ era um dispositivo de bomba que vitimou todos os grandes líderes mundiais na busca de uma nova trajetória de vida para a humanidade. MJ deixou escrito no Camboja, e para ser distribuído por todos os espaços possíveis, reproduzindo, e não criando, a frase de seu grande ídolo igual Nietzsche: “o homem prefere ainda querer o nada antes que nada querer.” Ludibriados por aquele pensamento, os grandes lideres mundiais, dez horas depois, já acordados, perceberam que a segunda página do livro não passava de uma magia cambojana de encantamento, acompanhada de uma caixa de música que induzia os observadores a ter tal pensamento bombástico, seguido pelo sentimento de visão do céu, no qual absorviam a frase do filólogo europeu sendo distribuída por toda a terra. Depois do susto, todos viram MJ deitado ao chão, vestindo uma camisa, ele sim morto, com os dizeres nela escrito: “espero que meu fantástico martírio artístico sirva de visão para uma nova humanidade.”
Joaseiro.com
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