Recife, 06 de junho de 2009.
O destino por vezes é uma lâmina
Quando pequeno, E adorava ver seu pai fazer a barba, fosse em casa, fosse no barbearia do poeta ZC. E era fissurado em lâminas, principalmente nas lâminas que não cortavam, não ensangüentavam a pele humana, mas que faziam o seu trabalho sempre pelas mão humanas. E sonhava com a lâmina cortando sua própria barba, cortando as lavouras das terras do Mocambo, sempre imaginando que sua vida seria guiada pelas lâminas. Quando adolescente, seguia a rigor sua fissura, começando a trabalhar como cortador de cana, utilizando sua lâmina afiada para separar a planta da terra e a palha da cana. Logo notou que seu destino não era essa lâmina, que a noção laminada a se estender por sua mente não era nem de longe aquela agora praticada. E resolveu sair dos canaviais e voltou para a casa dos pais, dando reinício aos trabalhos com a lâmina da foice no cortar o capim que alimentava o gado de seu pai. Certa tarde, no sítio Mocambo, E voltava para casa mais cedo e ouvia, no caminho, vários gritos saindo de dentro daquela única casa existente nas redondezas, a dele mesmo. E apressou o passo, querendo logo descobrir que agonia sonora cortava seus ouvidos. Chegando à casa, E encontrou sua mãe, deitada, ensangüentada, com uma lâmina na mão – uma foice -, morta; a frente seu pai, com outra lâmina – outra foice -, também ensangüentado, morto. E perdeu os sentidos, e só acordou dois dias depois, na mesma sala, com os corpos meio decompostos, cheirando além do mal. E não se preocupou com nada, saiu de casa com o que estava no corpo e desapareceu daquela cercania. Ninguém sabia o que tinha acontecido, apenas encontraram os corpos decompostos três semanas mais tarde, e nenhum sinal de E, que havia sumido no mundo. Dez anos depois, na pequena Itapetim, que nos dias de sua tradicional feira – quarta-feira – era ponto de encontro daqueles os quais todos chamavam de loucos na região, que se reuniam para coletar “impostos” através das mais lúdicas e mentirosas fábulas de sofrimento, que entorpeciam a mente de qualquer cristão, forçando-os, mentalmente, a fazerem doações para a sobrevivência daqueles auto-intitulados “cobradores de impostos”, apareceu um novo pedinte/cobrador com características peculiares que chamou a atenção de todos. Ele tinha pernas grandes e andava a contar seus passos, sempre bem largos, perambulando por toda cidade, falando palavras estranhas e, muitas vezes, incompreensíveis até para os mais próximos. O pedinte era estranho, pois seu olhar era tão assustador que fazia todos naquela feira, sem questionar e sem saber o que ele falava, darem valor ao seu pedido, entregando o possível em dinheiro, comida ou sacolas plásticas – que, sempre ao ver nas mãos dos outros, apontava, como que pedindo, e, quando recebido, colocava logo dentro de seus bolsos já estufados de sacolas. Diferentemente de outros semelhantes, que sempre apareciam no dia da feira e logo depois retornavam para suas cidades de origem, o “Passos Largos”, como foi chamado a princípio, ficou na cidade durante a noite e resolveu repousar no coreto da praça superior daquela cidade, bem em frente da igreja, pois lá ele tinha árvores e tinha como se proteger de qualquer situação vinda dos céus (como chuva, ou sol no amanhecer). Itapetim sempre foi uma cidade de curiosos, e logo no amanhecer, quando aquela criatura estranha já caminhava a contar seus passos pela cidade, mendigando um justo café da manhã, seu JR, notou alguma semelhança entre aquele sujeito e seu compadre assassinado anos atrás. Seu JR não mediu esforços, começou a seguir “Passos Largos” tentando alcançá-lo para indagá-lo sobre suas origens e sobre o que ele vinha fazer por ali. Quando o alcançou, seu JR estava apavoradamente cansado, mas ainda disposto a responder a seus questionamentos. Parou na frente de “Passos Largos” e perguntou de onde ele vinha. A resposta foi rápida, no entanto incompreensível, fazendo com que seu JR refizesse o questionamento e pedisse para que a resposta fosse lenta e pausada. Tal qual seu JR pediu foi atendido, no entanto o senhor notou que algo posto na boca de “Passos Largos” impedia o jovem de responder as coisas com clareza. Foi então que ele pediu ao pedinte/cobrador que retirasse aqueles objetos de sua boca para que ele pudesse ouvir claramente as respostas às perguntas que ele estava a fazer. “Passos Largos” retirou quatorze lâminas de barbear da boca, que estavam separadas ao meio, ficando quatorze metades de cada lado. Seu JR, impressionado, perguntou o nome ao jovem, e ele respondeu, agora de forma clara, que se chamava E. Seu JR, reconhecendo o afilhado, tirou a limpo logo toda a história, refazendo assim um novo sentido de bem querer para com seu ente desaparecido, mas ainda querido, e novamente tornou a questioná-lo sobre seu desaparecimento, por onde ele andava e terminou por perguntar o que ele tinha feito de sua própria vida, recebendo de E a seguinte resposta: “– Desde pequeno eu já sabia que minha vida seria guiada pelas lâminas, pois diariamente sonhava com elas, com seus cortes, com seu barbear. Por toda a minha existência juvenil procurei trabalhar com elas, acreditando que descobrindo alguma técnica de manipulação das lâminas eu encontraria a própria resposta de meu destino. No entanto esta minha paixão, este meu guia, entregou meus pais mortos, e sem respostas, e me fez perdido no tempo e no espaço por mais de nove anos. Quando acordei, novamente, para a vida, percebi que existiam várias lâminas dentro de minha boca, parecendo fazer parte de meu corpo, foi então que resolvi aceitar esta condição, pois meu destino sempre foi uma lâmina.”
Joaseiro.com
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