Conto da Semana

12 07 2009

Recife, 03 de julho de 2009.

“O excesso de luz cega a vista.

O excesso de som ensurdece o ouvido.

Condimentos em demasia estragam o gosto.

O ímpeto das paixões perturba o coração.

A cobiça do impossível destrói a ética.

Por isto, o sábio em sua alma

Determina a medida para cada coisa.

Todas as coisas visíveis lhe são apenas

Setas que apontam para o invisível.”

(Lao-Tse)

A Horta Comunitária dos Sonhadores

Por Guilherme Patriota

Talvez a leitura seja uma das coisas mais importantes para a cultura programada do ser humano, mas em casos mais raros o degustar do vício se torna uma doutrina quase que incorrigível de repetições e mais repetições do que não foi vivenciado, e assim foi com a vida de PR. Ele acordava cedo para ler Proust ou Joyce, pois ao meio-dia tinha que iniciar suas leituras de poesias ultra-românticas, visualizando o estudo filosófico do início da tarde e as leituras científicas do final, para que no começo da noite pudesse sair para encontrar os colegas e logo voltar para casa e tentar compreender textos biográficos que versavam sobre o homem em estado artístico. PR, aos quarenta anos, já havia lido mais de três mil livros, mil trezentos e cinqüenta notoriamente identificados nas primeiras páginas de uma agenda que ele sempre carregava em baixo do braço, no entanto estes dados e seu PHD na escola de estudos culturais da Inglaterra não solucionaram o sentido de compreensão de sua própria vida. No pouco tempo que tinha com colegas, não amigos, pois PR não tinha paciência de ouvir aqueles conhecidos de infância que falavam sobre trabalho, dificuldades do lar, do dia-a-dia, ele apenas condicionava a conversa dos rapazes e moças, de sua velha cidade, a análises, sempre aplicando dizeres de algum de seus tantos ídolos literários como forma de convencimento e sabedoria superior sobre a vida dos outros. PR morava com os avós, pois seus pais, quando ele completou vinte e oito anos, transferiram todas as responsabilidades convencionais e financeiras da vida de um cidadão para as mãos do jovem leitor, e PR não teve saída mais simples do que ir morar com os avós que tanto o amavam – ele era o único neto do casal quase centenário. A aristocrática família de PR nunca permitiu que ele mexesse uma palha sequer quanto às resoluções práticas do cotidiano. Ele não lavava, não passava, não cozinhava, não trabalhava, não pagava, não participava, não recondicionava; apenas lia. Quando os pais promoveram PR ao que os escritores capitalistas chamam de liberdade, ele sentiu que a perdeu, e, pior, percebeu que poderia perder sua leitura, seu único ente incondicionalmente querido. Morando com seus avós na velha e mesma cidade de sua infância, PR intensificou monstruosamente seu índice de leitura e transformou sua vida em um campo literário daqueles que só as palavras escritas é que têm valor. Todos desacreditavam PR naquela pequena localidade, pois lá a moral de um homem que vive de sonhos sempre foi descartada, impregnando-se todos os horizontes com aqueles dizeres de que “o trabalho engrandece o homem”. PR não ouvia, pois a paciência lhe faltava e, ao mesmo tempo, era totalmente preenchida pelos próprios livros, que o envolviam, que o cativavam a devanear e devanear em sua singular realidade. No aniversário de cem anos de seus avós, quem recebeu o presente foi PR, tudo bem que não era o mais desejado, pois o casal de idosos havia viajado sem rumo pelo mundo deixando uma carta de liberação para o neto, afirmando que agora sua vida estava por sua própria guia, por seu próprio intuito. PR, não tão perturbado como da primeira vez que foi “libertado”, pelos seus pais, juntou seus melhores livros e partiu para a rua. A cidade inteira já tinha noção de tudo, e deixaram PR por duas noites se virar com pequenas porções de alimento doadas pelos, agora, colegas de convivência – os sujeitos das ruas. A vitalidade e a disciplina de PR surpreendiam a todos, dado que não perdera nenhum dos seus hábitos de leitura no quando do habitar a praça. O sentido de [in]desejo dos habitantes daquela cidadezinha, não permitia que PR pudesse sobreviver daquela forma, ativando um inconsciente/consciente coletivo de não ajudar ao ex-aristocrata leitor que se recusava a render-se aos moldes de vida dos cegos do social. O tempo passou e PR continuava feliz, lendo, lendo, lendo, e agora cercado de amigos “ignorantes” que adorava ouvir. Para PR, ao contrário dos colegas de outrora, os mendigos falavam por uma verdade própria que estava “para além do bem e do mal” de sua também verdade, referendando que os sonhos, muitas vezes, e para alguns e outros de formas diferentes, podem ser pequenos traços de montagem para um quebra-cabeças chamado realidade. PR e seus amigos foram e ficaram isolados de sua sociedade, adotando o canteiro central da praça ao fundo do cemitério, com a autorização de sabe-se lá quem, de boa fé, na prefeitura, como “horta comunitária dos sonhadores”, que produzia o essencial a sobrevivência alimentar dos mesmos e servia como biblioteca pública a céu aberto daquele município. Em três anos PR ensinou todos os mendigos da cidade a ler e escrever, cativando um drink diário de sonhos para todos aqueles que não tinham o direito de sonhar. A “horta comunitária dos sonhadores” ganhou outros campos quando um crítico literário bisbilhoteiro a descobriu, pelas palavras de sua fonte “como um ato louco de um aristocrata exótico que quer aparecer”. Publicada a primeira notícia no jornal, relatando a nova comunidade intelectual formada no interior do país por mendigos leitores, todos os veículos de comunicação internacionais queriam conhecer e entrevistar o suposto líder daquela irmandade. PR recusou, pois afirmava não existir irmandade alguma, apenas a resolução de algo que naturalmente teria que se resolver. Mesmo não sendo o desejo de todos, a horta tornou-se ponto turístico daquela cidade, e a não irmandade teve que identificar seu território, agora novamente compartilhado pela população, com uma placa escrita a mão por PR: “A Horta Comunitária dos Sonhadores – Decidi ensinar quando parei de ler. Ao parar de ler descobri que nos homens os vícios sempre irão existir, e somos obrigados a passar alguns destes corriqueiros para nossos iguais, cativando a continuidade das ações quando estas geram sonhos. Passei quase meio século me dedicando a algo que imaginava ser meu, até descobrir que o que era realmente próprio estava resguardado. De tanto sonhar, devaneando por o que não era, acabei encontrando um real caminho, acreditando em mim mesmo, e agora nos outros que também são meus.”

Joaseiro.com


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13 07 2009
saviosamuel

A metalinguagem é sempre fascinante. Quem gosta de ler, gosta de ler sobre o hábito de ler; quem gosta de escrever, gosta de ler sobre o hábito de escrever, etc. Por isso, os leitores aqui devem ter gostado… Eu gostei, até mais que os outros, pois tenho tido mais apreço ultimamente por leituras menos densas, embora essa não deixe de ter o valor reflexivo que todos os seus textos têm.

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