Abuso de Mediocridade
Por Sávio S.F. Machado
“Poesia não tem dono
Alegria não tem grife”
Zeca Baleiro
Descendo a Rua São Pedro, após comprar três camisas, as mais simples que achou – sem estampa e sem nomes horríveis que chamassem mais a atenção do que seu usuário – deparou-se com um camelô vendedor de relógios. Há anos precisava comprar um relógio com contagem de segundos para o seu trabalho, mas tinha se acomodado em usar o cronômetro do celular, embora isso o fizesse perder grande tempo e manter uma das mãos ocupadas. Tão prático e tão barato um relógio de pulso, mas com o que não se acostumava para deixar de abrir os olhos pra outras possibilidades? Naquele momento, abrira: precisava comprar o relógio.
Parou um instante e veio o olhar do vendedor, aquele olhar de quem iria puxar o cliente, oferecer milhares de produtos e dizer todos aqueles clichês dos vendedores da Rua São Pedro. Já estava preparado pra devolver o olhar do homem, reeditando o olhar fulminans que fizera há cinco minutos para a vendedora da loja das camisas, quando esta disse que a blusa preta com a caveira “assentaria” muito bem nele. Ante a negativa, ainda teve de usar uma dose maior da sua grosseria silenciosa quando indagado da possibilidade de levar uma cueca estampada com o pato donald ou uma calcinha para a namorada ou pra mãe. Era “tudo promoção” – promoção do ridículo.
Eis que o senhor simpático surpreendeu gentil, pouco invasivo:
– Bom dia, vamos dar uma olhadinha aí nos relógios?
- É…
– É pro senhor? – embora tivesse idade pra ser pai do aspirante a cliente, o tratou com respeito.
– Sim.
– De ponteiro ou digital?
– Ponteiro.
– Tem esses quatro aqui à prova d’água.
Direto e ainda o tinha feito lembrar-se de um requisito importante pra sua escolha: não queria ter de ficar tirando e botando o relógio toda vez que fosse fazer entrar em contato com água. Vivia lavando as mãos no trabalho.
– E esse outro aqui, né à prova d’água não?
– É não, senhor, esse é só resistente.
– Ah! – fez a maior cara de entendido que foi capaz.
Passou a provar dos relógios, todos os quatro com poucas diferenças, basicamente nas cores. Ficou entre o azul e preto. O homem começou a ajustar a pulseira dos dois para que se adequasse ao braço do comprador. Ficaram apertados: gostava – lembrava-se de seu último relógio há cinco anos – deles girando em torno do pulso sem maiores dificuldades. Mais alguns ajustes e estavam bons. Punha um, depois o outro, os dois juntos, olhava, hesitava. Pensou que quando tivesse dinheiro compraria um daqueles relógios de bolso de modelo bem antigo. Queria mesmo era todos vendo que não se adequava àquele mundo, que preferia o século XIX, que apesar da pouca idade preferia o tempo antigo que não vivera, que protestaria contra a modernidade usando um bom, arcaico e anacrônico relógio de bolso com algarismos romanos e tudo mais! O camelô começou:
– Achei que esse preto se assenta mais no senhor.
– (Ah, meu Deus!)
– Esses relógios são muito bons, viu? Tem garantia, qualquer coisa é só trazer aqui que eu mesmo ajeito.
– Realmente é uma grande garantia.
– É! – disse sem entender a ironia. Olhe, tá todo mundo usando. O senhor acredita que até os protestantes estão me comprando esses modelos aí?
– Não me diga! (E o que diabos os protestantes têm de especial?)
– Os representantes de vendas também me compram muito e…
– Tá bom, eu vou levar o azul.
– Eu percebi que o senhor gostou mais desse…
– Quanto custa?
- Não vai querer levar nenhum modelo feminino pra namorada ou pra mãe? Eu lhe faço um desconto se…
– Não, quanto custa só o meu?
– Bom, é doze reais.
– Que ridículo! – enfureceu-se.
– Mas… o quê? O senhor quer trocar por outro modelo? Fique à vontade, pode experimentar aí…
– Não, meu senhor, seu preço, seu preço é que é ridículo. Vocês vendedores são todos iguais, querem vender um troço por dez reais e dizem que custa doze pra poder a gente pedir desconto, dizer que só quer dar oito reais e aí a gente fecha nos dez reais que o senhor queria, não é? “Nem eu, nem você, vamos fechar nos dez né?” Que ridículo! Pois olhe, meu senhor, eu não peço pra baixar não, viu? Tá aqui seus doze reais e pronto!
– Mas senhor, me desculpe, eu…
– Nada de desculpe, pegue os seus doze reais e fique calado se não quiser que eu o denuncie agora mesmo ao Decom por abuso de mediocridade!
Joaseiro.com
Imagens: relogiolandia.com
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