Em defesa da filosofia e da sociologia

2 02 2009

A pedido de alunos da Universidade Regional do Cariri – URCA, publicamos inteligente carta do professor Tolovi defendendo o ensino da Filosofia naquela e em outras instituições. Nosso espaço está aberto às demandas da URCA e de todas as instituições de ensino do Cariri

Em caráter de denúncia

O filósofo só consegue atingir o outro, com sua palavra, expondo-se como sujeito falante, como sujeito público. Precisa correr o risco de expor-se, de intervir no mundo como sujeito pensante e, quando necessário, de tomar partido, sobretudo quando a justiça, a liberdade e a verdade estiverem ameaçadas ou desrespeitadas”. (Hilton Japiassu)

Não gosto do profissional da educação que assume serenamente uma postura de incoerência e de contradição entre a sua teoria e a sua prática. Também não gosta da indiferença e da imparcialidade dos profissionais que só se preocupam com o seu salário ou com sua vaidade pessoal, e que mesmo diante de graves situações preferem evitar o conflito para não perderem os privilégios do poder em seu universo de trabalho. Por fim, gosto menos ainda dos que já possuem definidos os seus posicionamentos, como dogmas, com conceitos pré-estabelecidos (pré-conceitos) em função da luta pela manutenção ou pela perspectiva de tomada do poder. Portanto, se estou indignado diante de um “crime pedagógico” que está ocorrendo na universidade onde estou inserido, e se não tenho “rabo preso” com o poder atualmente estabelecido e não sou dependente de nenhuma facção com posicionamentos pré-determinados na disputa pelo poder institucional, o meu papel deve ser o de reagir, produzindo uma nova reflexão, gerando debates, buscando evidenciar as causas e as conseqüências das escolhas ideológicas que estão sendo feitas nos bastidores desta importante instituição educativa.

Atualmente é muito triste lembrar que a Universidade Regional do Cariri nasceu da Faculdade de Filosofia. Pior ainda é perceber que, nas mãos dos que fizeram parte desta história, a filosofia está sendo desprezada e banida dos nossos cursos, de uma forma completamente irresponsável e provinciana.

É triste também saber que a maioria dos cursos de nossa universidade não possuem em sua grade curricular a disciplina de introdução à filosofia. E que diversos cursos que possuíam esta disciplina estão retirando de seu projeto pedagógico. O Curso de Matemática e de Pedagogia tomaram a iniciativa. Pior ainda: o Curso de História da nossa universidade, tão destacado e elogiado nas avaliações nacionais, na última reformulação curricular, retirou a disciplina de Filosofia II. E como se não bastasse, na primeira reunião de 2009 do Departamento de História colocou-se em votação a retirada da disciplina de Introdução à Filosofia. E o que mais nos assustou foi o fato de que, colocando-se em votação, a maioria dos professores presente na reunião acatou a proposta colocada em pauta.

No tempo da ditadura os militares perceberam que para manter a “ordem” estabelecida e imposta não bastava apenas a violência física que produzia o medo. Eles logo perceberam que seria preciso atingir o coração da resistência que advinha do universo acadêmico. Pois no ensino médio e nas universidades havia um espaço de reflexão e debate que produzia consciência critica e que se traduzia em resistência à todas as formas de dominação insensata. Sendo assim, muito inteligentemente resolveram mexer na grade curricular e reordenar as disciplinas. E o resultado disso foi a retirada das disciplinas de Filosofia e Sociologia do ensino oficial assumido pelo Estado.

Mas, por que hoje, em pleno século XXI, em que o universo acadêmico, no Brasil e no mundo, reconhece a importância da Filosofia e da Sociologia para uma educação de qualidade, o curso de história desta universidade está retirando estas disciplinas de seu projeto pedagógico? E o pior: não foi uma atitude isolada. O que está ocorrendo hoje na URCA, não teria como pano de fundo a mesma preocupação dos militares na época da ditadura: manutenção das instâncias do poder estabelecido?

Atualmente, em nossa universidade, o poder militar foi substituído pelo poder político, que, como na idade média, depende dos pequenos feudos para sobreviver.

Estou cada vez mais convencido de que a Universidade Regional do Cariri assume um papel social e político muito importante: o de manutenção do sistema vigente, contribuindo para uma educação bancária, sem despertar a consciência crítica, sem desencadear conflitos com o sistema sócio-político-econômico instaurado na região.

Realmente, neste contexto a filosofia pode incomodar. Começando pela nossa própria instituição. Talvez não seja bom para muitos dos profissionais desta nossa universidade sentirem-se inseguro pela possibilidade do posicionamento crítico e autônomo do aluno. Talvez eles não queiram conflitos de idéias em sala de aula.

Diante deste contexto, qual é o risco que nós corremos?

Atualmente, muitos dos que estão no poder (em todos os setores da nossa universidade), estão atrelados à uma missão bem específica: manter os privilégios que este poder pode oferecer (mesmo que estes privilégios estejam apenas no nível da vaidade). Sendo assim, como a filosofia propõe uma relação dialógica e dialética na perspectiva de se produzir reflexões que despertem a consciência crítica, tendo em vista o protagonismo dos sujeitos históricos, ela pode representar um grande incômodo.

Me parece que a maioria dos nossos gestores e profissionais da educação em nossa universidade está satisfeita com uma educação neocientificista, tecnicista e fragmentada, incapaz de pensar o ser humano numa perspectiva mais ampla e complexa, em sua autonomia, alteridade e historicidade.

Diante dessa realidade podemos nos perguntar: até onde vai a autonomia dos “pequenos feudos” quando decidem, de forma irresponsável e corporativista, alterar um projeto pedagógico, retirando e incluindo disciplinas de acordo com a vontade ou necessidade dos “amigos”? E qual seria o papel da Pró-reitoria de Graduação diante de tal situação?

Atualmente a Universidade Regional do Cariri vive um momento muito sério: de um lado uma reitoria que não se importa com as contradições, desde que possa agradar determinados grupos que fazem parte do projeto de manutenção do poder. De outro lado, Reitorias, Centros e Departamentos totalmente fragmentados, como diversos membros de um “corpo sem cabeça”. Neste contexto, fica muito fácil um grupo de professores resolverem fazer alterações estruturais no projeto pedagógico de seu Departamento tendo em vista necessidades banais, mas com prejuízos pedagógicos e sociais profundos.

Vejo que em nossa universidade nós perdemos muito tempo produzindo textos e debates estéreis e rancorosos, a partir de teses dogmáticas, sem nenhum propósito de produzir reflexão e interação dialógica. Entendo que esteja mais que na hora de outras formas de debate, fora do campo minado da rivalidade pré-estabelecida. E, neste espaço, eu pretendo continuar colaborando e provocando outros educadores a participarem.

Prof. Carlos Alberto Tolovi

Joaseiro.com





Adeus, Zé Sozinho!

1 02 2009
ze-sozinho1Com enorme pesar,  registro o falecimento de José Raimundo Cavalcante, aos 67 anos, mais conhecido pela alcunha de “Zé Sozinho” ocorrido nesta segunda-feira, 26, em Juazeiro do Norte. Assim de cara poucos saberiam de quem se trata tal nota de falecimento. Coisas do Brasil, do Ceará e do Cariri onde só se destacam os potentados do vil metal.
     Zé Sozinho não poderia receber outro nome que não fosse este de uma sociedade excludente, míope, cruel e indiferente à arte dos pequenos, sobretudo àqueles que fizeram a opção pela maioria (os pobres e miseráveis). Os que transformaram a própria vida num sacerdócio em favor do bem e de uma causa nobre, mesmo no anonimato da mídia e longe dos banquetes das elites, assim como dos holofotes de uma imprensa que só tem olhos para a mesmice e para os castelos dos poderosos.
     Zé Sozinho era tão humilde, consciente e espirituoso que logo absorveu com naturalidade e senso de humor este epíteto. Aliás, algo que lhe caíra como uma luva, em parte, pelo fato de aumentar a sua “fama” entre os raros aparelhos midiáticos do Sul. O que não foi lá muita coisa, nem para o trabalho que fazia e,  tampouco para si mesmo. Foi por assim dizer, um transgressor em potencial. Um homem de exceção, como bem dissera certa feita o filósofo Nietzsche.
     Oriundo da agricultura, granjeou, contra tudo e contra todos, relativo sucesso ao popularizar a sétima arte entre os excluídos dos sertões. Muitos dos quais a própria sobrevivência já é um milagre. Tantas foram as cidadezinhas, muitas delas, até hoje, nunca tinha conhecido de perto uma projeção cinematográfica, que Zé Sozinho, só ele e Deus conseguiu realizar a troco de nada. Tudo em nome da paixão que mantinha pelo cinema.
     Zé respirava cultura e sofria de diabetes. Doença que durante anos tentou curar talvez por meio do amor e a determinação que dedicou às projeções pelas bibocas do nosso interior. Não teve jeito. Seu pobre coração de homem bom resolveu parar nesta segunda-feira. Zé Sozinho não curou o diabetes, mas deu um grande exemplo de cidadania e solidariedade cultural para o Ceará e o Brasil: fez a sua parte da melhor forma possível como protagonista e ‘diretor do filme maior que foi a sua vida’. O cinema para ele, era uma arma para a feitura do bem. Um instrumento pelo qual se poderia mudar a face do país, assim como a cabeça e o coração dos homens.
     Considerava-se filho do Caririaçu-CE, onde chegou ainda em tenra idade como retirante pernambucano de Pajeú das Flores. Mas Caririaçu era o rincão que ele carregava de bicicleta junto com o seu projetor de 16 mm e latas de películas para onde quer que fosse. Seu apelido se deu em função desse seu ofício. Porém há quem diga que foi por conta da sua mãe que sozinha conseguira criar seus cinco filhos. Sozinho, no decurso de 36 anos viveu da sua paixão pelo cinema. Qualquer lugar para ele, era ideal para uma projeção cinemática. No meio da praça, debaixo da ponte, na rua deserta, no tabuleiro da caatinga, no galpão abandonado, no adro da igreja, tudo era possível… Podia até ser sozinho, mas não era um homem solitário nem triste, posto que seus filmes constituíram um mundo à parte com o qual ele dialogava era feliz por isso.
     Ágil, disposto e inteligente subia ele mesmo na árvore, montava o alto-falante. Debaixo dela instalava o seu velho projetor e logo, a alegria estava construída. Seus filmes eram a um só tempo: entretenimento e lenitivo para quase todas as agruras e as dores daquele mundão esquecido de meu Deus. Filmes antigos, às vezes emendados, mas bons, consagrados e fascinantes para uma gente que nunca na vida conhecera um cinema de verdade. Tudo ali era novo. Até Coração de Luto, O ébrio, imagens esportivas de Pelé, Garrinha do Flamengo antigo no canal 100, O dólar furado, Casa Blanca, Romeu e Julieta, Mazzaropi, Chaplin, Oscarito e outras pérolas raras da Vera Cruz, Atlântida e Cinédia que a partir de Zé Sozinho pareciam novinhas em folha… Não fossem o riscado da fita e o preto e branco das cores. Muitos até choravam durante suas projeções romanescas como nos velhos tempos.
     Seu enterro aconteceu nesta terça-feira, 27 na sua Caririaçu, na serra de São Pedro. Onde certamente ficará mais perto de Deus, eternamente, assim como os filmes que apresentava pelos grotões adentro. Hollyood não sabe, mesmo assim me arisco a dizer que o cinema verdadeiro perdeu muito. Está de luto com o desencarne de Zé Sozinho. Mesmo aqui, neste canto escondido do Brasil onde quem sabe, por Zé Sozinho, todos haveremos de viver e levar a utopia da vida até as suas últimas conseqüências…
      Outro dia, por absoluta força do acaso, tive o prazer de conhecê-lo, não de carne e osso(como deveria), mas pela telinha mesmo estando tão próximos. Foi numa noite por meio do programa do Jô Soares da TV Globo, quando Zé Sozinho foi entrevistado. Estava radiante de felicidade. Falava da sua história e dos filmes como se estivesse no estrelado, dentro deles. Achei bárbaro aquele homem simples, diferente e determinado. Depois do programa fiquei matutando: como eu um pesquisador sempre atento às coisas do mundo nunca tinha ouvido falar daquela figura da cidadezinha vizinha de nós?! E disse para mim mesmo. – Algo está errado. Nossos talentos não merecem tanto desprezo. A quem podia interessar tanto ostracismo?! No fundo todos nós sabemos a resposta…
     Zé Sozinho falava do Cariri e do seu Caririaçu com doçura. Era um abnegado, incompreendido pelos que se acham iluminados, mas que só enxergam os caminhos do poder. Os verdadeiros coitados e ignorantes. Porque a arte e a cultura não dependem e nem precisam tanto deles. Zé Sozinho foi um “inteirado” fazedor de sonhos, justamente para tantos que perderam a capacidade de sonhar. Por isso agora Deus haverá de vê-lo lá em cima com bons olhos. Fellini, Mazzaropi e tantos outros amantes inveterados da sétima arte não o permitirão sequer que continue sendo chamado como entre nós. Porque no céu nosso Zé, nunca mais estará sozinho. Quem sabe os imortais passem a chamá-lo simplesmente de Zé do Povo.
     Adeus grande Zé! Agora você nunca mais ficará Sozinho. A solidão, ao contrário do que pensamos é coisa da vida. Porque sozinhos ficamos nós, os sertanejos do Cariri e do Nordeste inteiro, sem as suas mirabolantes e sensacionais projeções de bondade, educação, saudade, cultura e alegria. Zé Sozinho deve está agora se divertindo pra valer ao lado do mestre com as suas sempre novas projeções cinematográficas.
 
José Cícero da Silva
Secretário de Cultura de Aurora – CE
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Bolsas & Famílias

1 02 2009

Por incrível que pareça, o texto a seguir foi escrito por Míriam Leitão, do Jornal O Globo. Apesar de ser conservadora e na maior parte das vezes defender os grandes especuladores da economia mundial, nesse texto ela dá uma abordagem diferente da sua crítica costumeira.

Quando o governo ampliou o Bolsa Família, entendeu-se como gastança federal. Quando o BNDES comprou ações da Aracruz e da Votorantim, entendeu-se como medida contra a crise. Com a primeira decisão, o governo vai gastar meio bilhão de reais e beneficiar 1,3 milhão de famílias pobres; com a segunda, está gastando dois bilhões e meio de reais para beneficiar quatro famílias ricas.

No primeiro caso, o governo está incluindo no programa quem tem renda familiar de R$ 137 per capita por mês. No segundo caso, é impossível calcular a renda familiar dos beneficiados. O grupo Votorantim, da família Ermírio de Moraes, e a Aracruz, das famílias Lorentzen, Almeida Braga, Moreira Salles e Safra, fizeram maus negócios na aposta no mercado futuro de câmbio. Perderam muito dinheiro. O BNDES financiou a compra da Aracruz pela Votorantim e ele mesmo comprou um bloco de ações, pagando acima da cotação de mercado. No dia seguinte, o valor das ações caiu mais e os avaliadores de risco deram às ações perspectiva negativa. Sinal de que era um mau negócio e que a junção das duas empresas havia criado outra muito endividada, à qual o BNDES se juntou como um dos donos. (…)

No Brasil há quem se escandalize cada vez que aumenta o gasto com os pobres, e não faz conta alguma do que o Estado gasta com subsídios aos ricos. Os empréstimos do BNDES são com taxas de juros mais baixas do que as pagas pelo Tesouro para se financiar. Há um gasto do Tesouro implícito.

O Bolsa Família não é entendido nem por quem o faz. Tem sido temido pela oposição, que vê nele a razão da popularidade do presidente Lula. Tem sido defendido pelos petistas, pela mesma crença. É criticado por quem acha que esse dinheiro está sendo subtraído da educação. É atacado por falsos fiscalistas, que não veem os grossos volumes de dinheiro que saem pelos muitos ralos que subsidiam os ricos no Brasil. É desmoralizado por quem, no governo, acha que a exigência de contrapartida e a fiscalização podem ser negligenciadas. (…)

Os pobres deveriam ter preferência no dinheiro público. Nunca tiveram, nem mesmo agora. Uma rede de proteção social é ação civilizatória. Mas os avanços dos estudos das políticas sociais já provaram que melhor é construí-la não como um fim em si, mas como um meio de pavimentar o caminho para a mobilidade social através da educação.

Não há conflito entre recursos para o Bolsa Família e recursos para a educação. Recentemente, conversei com uma professora de alfabetização do ensino público do Espírito Santo. Ela dá aulas na parte mais pobre de Vitória, e lá 70% das crianças estão no Bolsa Família. O programa tem foco.

O erro do lulismo é que mesmo com o mérito de ter ampliado o antigo Bolsa Escola para o Bolsa Família, no fundo, vê o programa como arma eleitoreira. A maneira correta de fazer essa transferência do dinheiro dos impostos aos mais pobres seria a mais impessoal possível, não como um favor paternalista de uma espécie de “pai dos pobres”, mas como direito do cidadão. Milhões desses pobres jamais serão absorvidos no mercado de trabalho. Não por culpa deles, mas pelos erros do país que os relegou ao analfabetismo e à privação crônica. Os filhos deles, no entanto, têm muita chance. Se persistirmos.

Retirado do site: http://oglobo.globo.com/economia/miriam/post.asp?t=bolsas-familias&cod_Post=157759&a=496





Meia Passagem Estudantil no Cariri

28 01 2009

Desde Novembro do ano passado, a região do Cariri tornou-se pioneira fora da zona metropolitana da capital na emissão das carteiras estudantis com direito a meia passagem intermunicipal. Resguardado na lei. 13.706/O5, fruto da vitória no legislativo estadual pelo Deputado Chico Lopes que garante que meia passagem da macrorregional em todo o estado do Ceará. Por essa lei, todo aluno que mora em um município e estuda em outro, dentro da mesma macrorregião, tem direito a pagar meia passagem nos ônibus intermunicipais.

            Junto com a UNE (União Nacional dos Estudantes), os alunos da UFC (Campus Cariri) – junto aos alunos da FATEC (Centec) - tornaram-se os primeiros a possuírem as carteiras de estudantes. Em solenidade no dia 08 de Novembro de 2008, no auditório da URCA (Universidade Regional do Cariri) foi entregue a primeira remessa das carteiras de estudante com direito a meia passagem.

            O processo de emissão das carteiras é de responsabilidade da COGEMPE (Comissão Gestora da Meia Passagem Estudantil), junto ao DERT e a SEINFRA. A UNE é a única entidade estudantil até agora que pode articular convênios a nível estadual, pois se encontra devidamente cadastrada na COGEMPE. Coube-nos a tarefa de articular junto a UNE uma parceria em prol do direito do estudante visando assim uma melhoria significativa no tráfego dos estudantes até suas respectivas instalações de ensino superior.  

            Até o presente momento, apenas uma empresa de ônibus que faz o transporte intermunicipal dentro da nossa macrorregional está aceitando que os estudantes exerçam esse direito, a Via Metro. Entretanto, as negociações entre a COGEMPE, as lideranças estudantis da UFC e do Centec e a diretoria da empresa Viação Brasília estão se encaminhando para que se amplie essa conquista a um maior número de estudantes.

 

Marcel Marinho

Acadêmico de Filosofia UFC Cariri

Joaseiro.com





Assombrações do Homem do Tempo

3 01 2009

Mal curamos a ressaca da virada e já tem gente por ai a bufar a velha sentença: ´Como o ano está passando rápido!´. Tem gente que diz isso a cada folhinha do calendário. ´Já já é carnaval, Nossa Senhora´, estrebucha o infalível Homem do Tempo com a sua trombeta diária.

Ainda no sábado de Zé Pereira, quando mal tem saído o Galo da Madrugada, o representante do deus Cronos na terra, sempre à frente da sua época, solta bombas caseiras e anuncia as festas juninas. Mal pula as brasas da fogueira, decreta, com ares de sábio: ´Já já é Natal, esse ano correu como nunca´.

Apressado, assina mais um cheque, repare que ainda estamos em pleno mês dos desgostos, e o mal-assombrado Homem do Tempo mira a data e toca o terror de novo: ´Bem que eu avisei, 2010 chegou voando´.

O Homem do Tempo, esse infeliz das costas-ocas, esse vampiro das horas é capaz de matar de susto qualquer criatura temente à Velha da Foice. (…) Sim, amigos, a triste figura é perversa, um carrasco sem guilhotina, e adora tocar a sua trombeta justamente onde estão os mais idosos.

´Quem diria, já chegou de novo a Copa do Mundo´, alardeia com a antecedência mortal de sempre. ´Vamos ver quem tem garantia de vida até a próxima´, cutuca o belzebu, mais uma vez, com o seu pobre chiste publicitário.

O mais cruel Homem do Tempo que conheço, tão cruel que parece personagem de programa humorístico, é o meu ´padrinho de fogueira´ Antonio Carneiro, habitante de Santana do Cariri, na região sul cearense (…)

Além do avexamento de praxe dos homens do agouro, ele é mestre em comentar as rugas e outros maltratos que fazem residência em nossos pobres rostos. A saudação mais leve que apresenta a um velho conhecido, depois de meses de ausência, é mais ou menos assim: ´Amigo, você está acabado, derrotado pelo relógio, tem gente a quem o tempo nem dá bom dia, não respeita mesmo´.

Pode ser homem, pode ser mulher, independentemente da idade e do natural e belo estrago da vida. Ninguém escapa.

Xico Sá – Jornalista





Confissões de um menor abandonado

28 12 2008

Eu sei que sou culpado, não tive a capacidade de assumir a administração de minha vida, não fui capaz de resolver as emoções infantis nem consegui equilibrar-me sobre os obstáculos que herdei da sociedade.Até que me esforcei! Olhei para a vida de meus pais, porém, os desentendimentos de seu casamento falido nublaram os tais exemplos de que ouvi falar, só falar.

     Não tive o privilégio de me aquecer no meu próprio lar, porque faltou-lhe a chama do amor, sustentando-nos unidos. Cada qual saiu para o seu lado. Na confusão da vida me perdi.

     Candidatei-me à escola. Juntei a identidade civil ao retrato desbotado, botei a melhor farda de guerreiro, entrei na fila. Humilhado por tantas exigências, implorando prazos, descontos e vaga, sentei-me num banco escolar, jurei persistência, encarei o desafio.

     – Joãozinho, você não sabe sentar-se?

     – Joãozinho, seu material está incompleto.

     – Joãozinho, seu trabalho de pesquisa está horrível.

     – Joãozinho, seu uniforme está ridículo.

     A barra foi pesando, fui sendo passado para trás e vendo que escola é coisa de rico. Um dia, arrependi-me, mas a professora se escandalizou das faltas (nem eram tantas!) e disse que meu nome já estava riscado, há muito tempo. O que fazer? Dei marcha à ré ali e, olhando a turma, com vergonha, fui saindo.

     Moro nas marquises, debaixo da ponte, nas calçadas e não moro em lugar nenhum. Tenho avós, pais, irmãos e primos, mas não tenho família. Tenho idade de criança e desilusões de adulto. Minha aparência assusta as pessoas e nada posso fazer. A cada dia que passa, estou mais sujo, mais anêmico, mais fraco.

     Sou um rosto perdido, perambulando, em solo brasileiro. Na verdade, chamam-nos menores, todavia, somos os maiores desgraçados.

     Vendo balas num sinal de trânsito que muda de cor a cada minuto. Quando o sinal fica vermelho, os carros param, meu coração dispara. Para nós, menores abandonados, o vermelho é a cor da esperança.

Ivone Boechat, PhD em Psicologia da Educação

Joaseiro.com





Os riscos da automedicação

19 12 2008

 Loucos por medicina

Eli Halfoun

A velha e sempre acertada sabedoria popular costuma dizer que de médicos e loucos todos temos um pouco. Parece que com a implantação da internet estamos ficando mais “médicos” e diante dos acontecimentos que nos são jogados na cara diariamente, sem dúvida, mais loucos.

A internet é (não se pode negar) um dos melhores instrumentos que o modernismo tecnológico nos permite. É “navegando” pela internet que podemos fazer “viagens” fantásticas, ter acesso a tudo quanto é tipo de informação, além de um infinito leque de diversão eletrônica. Se tudo isso é muito bom há, como em tudo na vida, o chamado lado ruim: tem muita besteira espalhada pelos vários sites e principalmente blogs, o que só acontece porque a internet é, felizmente, democrática ao extremo permitindo que qualquer um informe, opine e escreva sobre qualquer coisa, mesmo que na maioria das vezes não esteja preparado para escrever e opinar sobre absolutamente nada. Portanto, cabe a cada um de nós saber o que selecionar para ler e entender.

É o livre acesso a qualquer tipo e informação que nos tem feito acreditar que também estamos médicos: se qualquer um de nós desconfia ou ouve falar em uma doença acha que é simples resolver o problema: basta entrar na internet, pesquisar sobre a tal doença e partir para a perigosa e absurda prática de automedicar-se, o que além pretensão burra é um risco às vezes fatal.

Por mais que um artigo científico tente usar uma linguagem popular o entendimento de qualquer doença é sempre complicado para o leigo que se acha médico e que ainda não percebeu que quem entende de medicina e, portanto, pode diagnosticar e receitar é o médico – aquele que realmente estudou (e muito) para isso. Pesquisar usando a variedade de informações às quais a internet nos permite acesso não nos faz especialistas em nada. Pelo contrário: faz entender cada vez menos simplesmente porque o desencontrado volume de informações que são disponibilizadas acaba, isso sim, dando um nó no cérebro.

Mesmo assim parece que está virando mania (mania idiota) chegar ao consultório médico com o diagnóstico pronto, feito com base em pesquisas realizadas via internet. Não são raros os casos em que o paciente se acha perfeitamente capaz de discutir com o médico e tentar impor o diagnóstico que recolheu apenas por ouvir dizer ou ler. O médico, esse profissional que merece respeito, diagnostica porque estudou para isso e não foram horas de “estudo” pela internet, mas sim anos de faculdade e de um sempre necessário aperfeiçoamento mesmo depois de muitos anos de profissão. A medicina progride a cada dia, o que prova que nós os “médicos virtuais” não temos a menor capacidade de diagnosticar e muito menos receitar absolutamente nada. A prática da medicina caseira através da internet também é exercício ilegal da profissão e acima de tudo uma atitude irresponsável.
*Na maioria das vezes praticada contra nós mesmo

Fonte: Tribuna da Imprensa Online

Leia outro artigo sobre o assunto em: http://joaseiro.wordpress.com/2008/07/30/uma-doenca-chamada-internet/





Operação José Serra

4 12 2008
Por Guilherme Scalzilli
     Com alguma paciência para escarafunchar notícias antigas, o leitor curioso estabelece a trilha que leva Daniel Dantas ao Palácio dos Bandeirantes. A viagem começa em 1994, quando Ricardo Sérgio de Oliveira atuou como arrecadador da campanha de José Serra, que depois o indicaria para diretor do Banco do Brasil.
     Através dos fundos de pensão, Ricardo Sérgio financiou os consórcios de Dantas nos leilões da telefonia, das estatais elétricas e da Vale do Rio Doce. Ele também arquitetou o caixa dois da campanha reeleitoral de FHC. Participaram do esquema o Opportunity (via Marcos Valério) e o grupo francês Alstom, hoje investigado pelo suborno de altos funcionários tucanos em licitações do Metrô paulista. Andrea Matarazzo, amigo de Serra, aparece com freqüência nesses episódios.
     O delegado que investigava Ricardo Sérgio foi afastado em 1998 por Marcelo Itagiba, então superintendente da Polícia Federal. Itagiba, casado com uma prima de Matarazzo, virou assessor de Serra no Ministério da Saúde. Hoje, deputado federal, preside a CPI dos Grampos, que tenta desqualificar a atuação do delegado Protógenes Queiroz na operação Satiagraha. Queiroz teria omitido informações de seus superiores. Um deles, o diretor de Inteligência Daniel Lorenz, coordenara as investigações sobre o extinto dossiê que apontava ligações de Serra com a máfia das ambulâncias.
     Dantas não ficou preso graças a Gilmar Mendes, defensor do governo FHC na Advocacia-Geral da União. Já ministro do STF, Mendes arquivou uma ação de improbidade administrativa contra Serra. Depois, afirmou ter sido espionado quando falava ao telefone com o senador Heráclito Fortes. Este possui ligações com as empresas de Dantas e é amigo de sua irmã, Verônica, ex-sócia da filha de Serra.
     Restam dúvidas sobre os motivos da blindagem em torno de Daniel Dantas?

Publicado na revista Caros Amigos, em novembro de 2008

Guilherme Scalzilli é historiador e escritor, colabora regularmente com a revista Caros Amigos, o Le Monde Diplomatique, o Observatório da Imprensa e outros veículos.





Reflexão sobre a Internet

23 11 2008

Falta cada vez menos tempo

Dia desses, enquanto esperava uma página da internet carregar, pensava sobre todas as facilidades que o computador trouxe para a vida cotidiana. E fiquei imaginando que, se saíssemos descascando esse conjunto de benesses, tal como se fosse um abacaxi, possivelmente acabaríamos encontrando um único cerne: a economia de tempo.

É bem provável que a facilidade de comunicar-se fosse um dos últimos pedaços a cair, mas vale lembrar que o telefone, o correio e o telégrafo já existiam há muito e que o olho de vidro apenas aperfeiçoou esses contatos, através de muita rapidez e agilidade. Acontece que, de uns anos para cá, o feitiço vem se virando contra o feiticeiro. O aperfeiçoamento dessa ferramenta acabou criando outro espaço, com novos tipos de relações que exigem atenção e, logicamente, ele, nosso precioso tempo.

Ploft, caímos na armadilha. Agora, somos quase escravos de um lugar que não é real, mas que nos retém como se fosse. Gastamos horas em sites de relacionamentos, respondendo e-mails, conversando por programas de mensagens instantâneas, atualizando blogs, flicks, fotologs. Um sem-número de tarefas que consome boa parte do dia. Ou ele inteiro, se a conversa no msn estiver interessante e se o chefe não estiver por perto.

Lógico que também existem as vantagens. Não precisar ficar de pé duas horas, em uma fila de banco, vendo na sua frente uma fila de motoboys cheios de boletos, faturas e carnês é uma delas. Mas não creio que os jovens e crianças lotem as lan houses, por exemplo, para pagar a água e a luz. Ainda estamos no começo desse processo e, sendo bem otimista, há como convertê-lo. Mas é preciso que tomemos consciência disso antes que seja tarde demais. Ou melhor, enquanto ainda há tempo.

Pádua Sampaio

Fonte: Diário do Nordeste





Texto do Leitor

4 11 2008

Carta de um Juazeirense um tanto quanto insatisfeito

 

Mesmo de longe, acompanhando diariamente as notícias via internet da terra do “Padim Ciço”, fico preocupado com a situação alarmante que vem se instalando nesse centro comercial, religioso, turístico e cultural. Sou estudante de Medicina da Universidade federal de Alagoas e há seis anos saí, temporariamente, da minha terrinha.

            Juazeiro do Norte a cada dia vem se mostrando uma cidade pequena estruturalmente. É incrível a falta de políticas eficazes para receber aqueles que sustentam a cidade – os Romeiros  – e para manter os habitantes e visitantes de todos os lugares do Brasil . A cidade é a mesma com 250 mil e com 800 mil habitantes. O centro da cidade se torna um emaranhado inconfundível de pessoas, carroças, camelôs e romeiros. Sem contar o calor esgotante, atrelado à falta d’água é claro.

            A segurança pública é uma piada. Somos a maior cidade do interior do Estado e, à disposição se encontram apenas duas viaturas que, como diz o poeta Pedro Bandeira, “na subida falta força e na descida falta freio”. O governo cearense nunca nos olhou com bons olhos, isso é fato. Mas não é argumento, pois temos deputados eleitos pela região, já tivemos um senador na última gestão, e acima de tudo, um curral eleitoral decisivo.

            A saúde é uma falácia. Não temos um hospital de urgência e emergência de qualidade. Dependemos da boa vontade dos municípios de Barbalha e Crato. Juazeiro possui somente 92 leitos para internação em estabelecimentos públicos, segundo o IBGE. Não dispõe de uma Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), presente em cidades de médio e grande porte. A saúde em Juazeiro está doente, agonizando e ninguém a salva. Mas como, se não tem onde interná-la?

            Falando um pouco da infra-estrutura, pergunto: que estrutura temos? A cidade se encontra abandonada. O trânsito crescente e caótico sem nenhuma ação do órgão municipal, que sem dúvida, já caiu no gosto popular, pois não se faz ações de fiscalização na cidade; e isso os motoristas e motoqueiros de Juazeiro adoram. Andar sem capacete e sem cinto é uma necessidade para essas pessoas, esquecendo que a vida é o principal. Foram distribuídos na cidade vários sinais de trânsito, como se isso fosse a solução. A cada tropeço, um sinal. O Centro de Apoio ao Romeiro está jogado, servindo apenas de morada para alguns cães e gatos e de poluição visual para quem vai em direção à Caririaçu.

            Não vou me alongar tanto nesse intróito texto. Ele representa a sensação de um juazeirense que por ora está estudando em outro Estado. Deixo aqui o meu protesto e pedido a todos, incluindo os políticos, que olhem com carinho a nossa cidade tão bela e sofrida. Aproveitando a inspiração do Dia de Finados e aconselho aos meus conterrâneos que “não morram” agora, pois só temos um rabecão que serve toda a região do Cariri, logo até os mortos sofrem. Grande abraço.

                                                              

  Júlio Onofre, Maceió-AL

Joaseiro.com





Texto do leitor

1 11 2008

 Aurora, perspectiva cultural  de um novo tempo

     Tradicionalmente o município de Aurora tem-se notabilizado no cenário artístico do Ceará, do Nordeste e por que não dizer do Brasil, como um verdadeiro celeiro que mantém guardada uma das mais autênticas riquezas culturais do  interior caririense. Com uma vertente por demais variada, indo da literatura à música, da escultura às artes plásticas, do artesanato à culinária, assim como do repentismo poético ao reisado e aos penitentes da Ordem Santa Cruz. Todos esses valorem compõem o verdadeiro caleidoscópio das preciosidades sócio-culturais desse belo município localizado nos grotões do Cariri cearense. No entanto, o abandono em que se encontram relegadas antigas tradições que no passado fizeram à alegria e a diversão de gerações inteiras tais como: a dança do coco, o reisado, o bumba-meu-boi, o maneiro-pau, as pastorinhas, o forró de pé de serra, o xaxado, a literatura de cordel, o Casemiro coco,  dentre outras que se encontram hoje quase que completamente esquecidas. De tal maneira, não constitui nenhum exagero afirmar que parte considerável das manifestações da cultura popular de Aurora ou já desapareceu ou encontra-se num acelerado processo de extinção, rumo ao esquecimento total. Uma vez que aqueles que eram possuidores deste conhecimento oral, já tenham quase todos falecidos.

 

     O mesmo acontece com o seu patrimônio arquitetônico de onde se destacam o Casarão do Cel. Xavier de 1831, a antiga residência da brava matriarca Marica Macedo, o prédio da Estação Ferroviária de 1920, incluindo a do distrito de Ingazeiras, juntamente com as residências do Agente da Reffsa ambas construídas no mais apurado em estilo neoclássico. Todo este patrimônio precisa ser recuperado/tombado(enquanto há tempo).

 

     Um trabalho rigoroso com esta perspectiva preservacionista pode inclusive gerar divisas não apenas no sentido da preservação da memória histórica, mas principalmente no aspecto do turismo local que também precisa ser iniciado. Há, decerto, uma possibilidade efetiva de um desenvolvimento cultural sustentável. Não importa se estamos apenas começando, é preciso que tenhamos uma visão de futuro para tudo… Por conseguinte, com a implementação de uma política voltada para este setor é possível que Aurora passe a ocupar de vez um lugar de destaque e que tanto merece no cenário regional do Cariri e quiçá no Ceará. Já que potencial para isso possui de sobra…

 

     O fenômeno relacionado à figura da Mártir Francisca, conhecida no além-fronteira como “A santa Popular de Aurora” constitui um outro aspecto fundamental para a projeção de Aurora e o desenvolvimento do chamado turismo religioso no contexto regional. Mesmo sem nenhum trabalho voltado para o setor(até agora 29/10/08) por parte do poder público, a história da mártir correu o mundo, ao ponto de serem muitas as caravanas de curiosos, devotos e fiéis que vêm todos os anos a Aurora para visitar a capela da ‘Santa’. O primeiro passo seria dotar o local de visitação de uma infra-estrutura mínima necessária, proporcionando mais conforto, comodidade e bem-estar aos visitantes. O turismo religioso é outro item propulsor de desenvolvimento que vem sendo trabalhado em todo o mundo. Creio que em Aurora não poderia ser diferente.

 

     Por outro lado, temos ainda cerca de 42 km do rio Salgado (o maior rio da região) cortando Aurora de uma ponta a outra. Com a viabilidade do projeto de Transposição do São Francisco para o Nordeste e, que usará o percurso do Salgado como calha natural, ajudará em muito a execução de um possível programa voltado para o turismo ecológico em várias partes do rio, notadamente onde os atrativos naturais são preponderantes. Para citar apenas alguns dos muitos atrativos naturais do manancial salgadiano, basta lembrar a aprazível vista da ponte; os mergulhos nas  barragens; o banho e o panorama ecológico proporcionado pelo Poço-do-Meio, o insólito sítio arqueológico da Massalina (sítio Volta), a promoção de pescaria esportiva e controlada, etc. Tudo isso, facilitaria, inclusive o despertar para a necessidade de uma efetiva consciência ecológica atrelada a uma visão mais responsável no tocante à preservação dos recursos naturais do Salgado e por extensão, de todo o bioma aurorense por parte da população. Também é digno, tanto de preservação, quanto de aproveitamento turístico; a enigmática necrópole conhecida sob a denominação de Cemitério da Bailarina situada no sítio Carro-quebrado na região de Antas. Resquícios de sepultamentos clandestinos que remontam o século XVII.

 

     Um município com o potencial cultural de Aurora não pode se dá ao luxo de prescindir de um centro cultural, de um museu, de oficinas de artes e ofícios, de um núcleo de exposição permanente, de uma central de artesanato, de uma biblioteca que seja modelo e referência para o Cariri, enfim de uma política de cultura realmente “agressiva” que possa mostrar aos próprios aurorenses e ao Brasil o que o município tem de melhor nesta área. É inconcebível que tenhamos ainda pessoas, sobretudo jovens que sequer já ouviram falar em Hermenegildo de Sá Cavalcante, Jaime de Alencar Araripe, Nêgo Simplício, Serra Azul, Marica Macedo, Padre Francisco França, Padre Luna, Amarílio Gonçalves e tantas outras figuras importantes desta terra. Todavia, conhecem de cor e com riquezas de detalhes: Madona, Xuxa, Michael Jackson, Tiririca, Bola de Fogo, Ronaldinho Gaúcho e por aí vai… Convenhamos, não podemos permanecer impassível perante esta inversão de valores  cada dia mais crescente. Antes de se estudar o rio Nilo, Tigre e Amazonas, por exemplo; é imperioso conhecer o rio Salgado, o Jaguaribe, o riacho do Jenipapeiro, dos Porcos, o açude Cachoeira, o Orós, o Castanhão, a Massalina, o boqueirão, o olho d’água de Vinô, etc… de modo que o universal possa começar efetivamente, por nosso quintal.

 

     Esta constatação também está umbilicalmente atrelada a forma como temos tratados historicamente as nossas riquezas culturais(tradição, o folclore, os saberes do senso-comum) e, por conseqüência o tratamento que se tem oferecido aos nossos autênticos valores da terra (os artistas e artesãos). A própria escola (no seu atual modelo engessador de novas idéias) e, sobretudo a sua metodologia estanque tem ajudado no atual emaranhado destas contradições. Além de todo o “lixo” midiático que tem produzido na nossa gente um verdadeiro “estupro cultural” ao subestimar a sua capacidade de raciocinar livremente sem a imposição do “emburrecimento” programado. Mas é verdade, a TV não é apenas causa, porém conseqüência também…

 

     No entanto, digamos que uma cultura de verdade não se cria. Vive-se na medida em que a preservamos. Ao passo que a cultura é a própria identidade de um povo, sem ela, não se é ninguém… Assim como um povo sem história nunca pode sequer se imaginar no tempo  futuro. É preciso conhecer para viver uma cultura de verdade, sob pena de não sermos ninguém. Ou quem sabe, apenas mais um, perdido para sempre numa massa amorfa que não pensa e não vive por si mesma. Chega, de se viver e consumir gregariamente o que não é nosso.

 

     Por isso acreditamos que Aurora daqui para frente resistirá à tentação, construindo a sua própria história. Ou pelo menos se esforçará para isso. Optando por  construir um novo tempo cultural para sua gente, com o mesmo entusiasmo de quem constrói uma aventura para uma vida inteira.

 

José Cícero, Professor, pesquisador, poeta e escritor.
Editor da Revista Aurora - www.blogdaaurorajc.blogspot.com

 

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Consultório do Dr. Mercado

28 10 2008

Essa noite eu tive um sonho de sonhador. Maluco que sou, eu sonhei.

 

Sonhei que estava numa sala. Uma sala irremediavelmente branca. Paredes brancas, móveis brancos, roupas brancas, se brincar, até a TV era branca. Tudo ipodianamente branco. No meio desse mundo de algodão, chamaram a minha atenção. Era uma atendente.

 

Perguntava esta criatura se era a primeira vez que eu tinha estado ali, e o que acontecia comigo. Verborragiei. Disse que sofria de pânico e alucinações. Os detalhes todos vieram à minha cabeça…

 

Logo me arremeteu o medo que eu tinha da apresentadora do telejornal vespertino e sua cara de catástrofe. Sua boca e sua expressão teimavam em repetir a sinfonia cacofônica “Dólar Dispara”. Em mim, taquicardia.

 

Num instante, sua fisionomia sem graça tomou a forma de um cineasta decadente. Ele tinha chifres, tridente e exalava um pesado cheiro de enxofre. Ao fundo, trombetas soavam alguma coisa como “nacionalização”. Nessa hora, a sudorese se descontrolou. A atendente perguntou se havia algo errado. Sacudi a cabeça energicamente. Quis saber se já podia sentar-me. Ela disse que sim. Iniciou-se então o sacramento consultorial de folhear revistas.

 

Para quê, meu Deus? A reportagem de capa trazia a Reunião do G-8. E Madonna. Custei a acreditar que Bono Vox não era mais a bola da vez em Davos. Suas súplicas pela África estavam “fora de moda”, dizia o editor. A new wave agora era a diva pop no conselho supremo intercedendo por ajuda aos oprimidos fundos de pensão. A legenda da foto: “Que será das velhinhas norte-americanas?” Sem trocadilhos.

 

Uma hora dessas e tudo meu estava tremendo. Ainda deu tempo ler sobre Sarkozy, o reformista implacável, o evangelista liberal do velho continente, falando em “refundar o capitalismo”! Fundo realmente deve ser a palavra da estação.

 

Uma boa senhora compadeceu-se de meu drama. Falou-me que às vezes também se sentia assim. Foi professora, e quando ouvia a palavra bilhões, entrava em colapso. Ralhava com os alunos, colocava-os para fora de sala, bradando que aquela era uma palavra que, na sua sala de aula, não podia ser dita. No seu tempo, este tipo de atitude receberia uma punição à altura. Bilhões e educação: nem rima tem! Ao final, notando meu transtorno, consentiu que eu lhe tomasse a vez.

 

Foi quando entrei na sala do médico. Limitou-se a me dizer que o que eu sofria era um drama mundial, coisa da globalização e da vida moderna. Sua filha passava pela mesma situação em casa. Receitou-me alguns capítulos de “O Monge e o Executivo” e duas sessões semanais de treinamento no CIEE. “Você deve tornar isso um hábito, sabe? Pelo menos até esse pessimismo passar.” Quando olhei de relance a tabuleta na parede, o diploma da Fundação Getúlio Vargas dizia: “Dr. Mercado”.

 

Maluco que sou, acordei…

 

John Heinz, 23, juazeirense nascido no Crato, é estudante de Direito

(UFPE, Recife).

heinzce@gmail.com





CQC: Custa Muito Caro

30 09 2008

Por John Heinz

 

     Uma das benesses de se morar com pessoas que não a tríade pai-mãe-irmã(o)(s) é a exposição à diversidade. Nada contra quem mora em família. Ela tem suas dádivas, indiscutivelmente. Mas certas experiências, digamos, dissonantes do ‘usual’, ocorrem com muito mais freqüência fora do ambiente paterno-maternal.

 

     Vivo essa realidade há quase seis anos, e experimentação da diversidade eu tenho provado ultimamente com um dos amigos que comigo dividem apartamento. Ele é fã de um programa semanal, o CQC, ou Custe o Que Custar, exibido às segundas-feiras, pela TV Bandeirantes, com reprise aos sábados. Muitos já devem tê-lo visto, afinal, ele é tratado por muitos como o “Kaká da Tv brasileira”. Mesmo assim farei brevíssima síntese de sua estrutura.

 

     Comecemos pelo Wikipedia: “Custe o Que Custar ou CQC é um programa jornalístico que trata os assuntos com humor e irreverência”.

 

     É, talvez não seja bem isso que eu queria dizer. Primeiro, por que não considero o CQC um programa jornalístico. Se é assim, o Pânico na TV, que também realiza cobertura de festas de “famosidades”, poderia igualmente ser um programa jornalístico. E convenhamos, apesar de me darem boas risadas, Vesgo, Sílvio e Sabrina Sato não são lá a primeira imagem de jornalista que me vem à cabeça.

 

     Erros e “pérolas” da tv nacional também não parecem uma grande atribuição do termo “jornalístico”, já que quem passa as tardes em casa pode acompanhar, diariamente, há pelo menos 25 anos, o quadro Falha nossa do Vídeo Show.

 

     Mas você, caro leitor, que, como o meu colega de jornada aqui na Manguetown, dá boas risadas com os homens de terno preto, pode prontamente citar as denúncias e protestos feitos pelo programa. “Até proibidos de entrar no Congresso Nacional eles já foram!”. E, uma coisa eu tenho de concordar, notícia e jornalismo são duas coisas que têm “tudo a ver”.

 

     É agora que eu começo a falar do “humor” e da “irreverência” do programa de Marcelo Tas. E numa prova de gentileza, nem vou me referir às piadas sem graça feitas durante seus noventa minutos de exibição. O meu grande problema com o tal CQC é que o seu “humor” e “irreverência” em nada diferem do que já é normalmente feito na mídia nacional. Me explico.

 

     Tratar políticos como pessoas do distante mundo da corrupção não é novidade alguma. Há anos Brasília é tratada como um universo paralelo habitado por larápios de toda espécie. E não é só a capital federal: as assembléias legislativas, câmaras de vereadores, palácios de governo, tudo faz parte de um lugar à parte do restante do Brasil. Ridicularizar pessoas públicas também não é coisa que nasceu hoje, nem com o episódio de “Lula e a Cachaça”, nem com a promessa da candidata de esquerda de “pintar a estátua do Padim de vermelho”.

 

     Acontece que programas assim só contribuem para que esse mundo fique mais e mais distante de quem quer que seja. Colaboram para o que Frei Betto chamou em linhas anteriores de “despolitização da política”. Porque, claro, como é que eu, cidadão honesto, pagador de impostos, sofredor da realidade brasileira, posso me envolver nesse negócio sujo da política? Impossível. Deixemos a política pra lá.

 

     Melhor que isso, vamos transformá-la num negócio. Enquanto eu tiver que pagar, você, político, vai ter que me dar alguma coisa em troca. Negócio é negócio. E ficamos nesse negócio de política, eu, com uma rua asfaltada ali, com uma pracinha reformada aqui, e você, com um favorecimento aqui, uma nomeação de cargo ali, uma concessão de tv acolá. E nesse negócio de política, ficamos todos bem, os ladrões, os jornalistas e eu.

 

     Tratar a política deste jeito e, portanto, afastá-la da sociedade, onde deveria ser o seu habitat, não é indignação. É cooperação. E o que seria melhor para a imprensa do que permanecer como a guardiã da verdade e da justiça? Infelizmente, ou felizmente, não é preciso ir muito longe para ver quem são os verdadeiros beneficiados do espírito paladino da imprensa. Basta olhar nas mãos de quem estão as concessões de rádio e tv.

 

     A cobrança, a denúncia, o protesto, todos têm seu lugar. E seu lugar é parelho a uma cultura de participação na política, na gestão do bairro, nos espaços coletivos. Quantos participam dos mandatos das pessoas nas quais votaram na última eleição? Quantos acompanham as contas da prefeitura, ou mesmo do seu vereador? Quantos cobram orçamento participativo na sua cidade? Agora, o mais importante, quantos programas de tv estimulam a participação política ao invés da cobrança da mercadoria política?

 

     Para mim, e me desculpe você leitor fã do CQC, rima boa para manifestação é participação, e isso nem o CQC, nem a Veja, nem o restante da “grande imprensa” estimula. Pelo contrário, cumprem o mesmo papel. Afastam os cidadãos, os verdadeiros interessados, daquilo que seria a arte de gerir o bem comum e de criar o bem-estar coletivo. Afastam o cidadão da política. E isso, de fato, custa muito caro.

  

John Heinz, 23, juazeirense nascido no Crato, é estudante de Direito (UFPE, Recife).

heinzce@gmail.com

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Texto do Leitor

26 08 2008

SE SEGURA JUAZEIRO!! (E o resto do Brasil, também?)

Rafael Celestino Soares
Cidadão Juazeirense e Geógrafo do Projeto Geopark Araripe
     Minha intenção aqui não foi fazer uma crítica, mas uma descrição, somente. Agora, se a descrição se faz uma crítica é outra história…Então vamos lá. Por aqui, a política(gem) tá mais ou menos assim…
     Em segundo lugar com 25% temos o candidato da situação, Salviano, que sequer é apoiado pelo atual prefeito (da situação!). O atual perdeu na convenção, se revoltou, saiu do partido, e tá apoiando o……….PT? É… o PT (Partido de Todos [?] ). “Juazeiro precisa, Salviano realiza”. E o carro de som aqui passa com cada proposta… “monitoramento e policiamento em tempo real nas ruas de Juazeiro com super-câmeras! – Salviano fará o frigorífico Industrial de Juazeiro – Salviano fará um duplo acesso ao Aeroporto” e etc… Na televisão aparece uma tal de Irmã Nelly que fala trocentas vezes que “a gente tem que votar em Salviano porque ele é FILHO do Juazeiro” Sei não… mas se se realizar será que nem “A Hora do Pesadelo qualquer número”. A gente vai trazer o Freddy Krueger de volta, com a promessa de saneamento para a Rua Elm, e daí vocês já sabem como termina…
     Outro candidato é o Carlos Cruz… Meu Deus!!! O povo já esqueceu do rombo que ele deixou, porque ele tem incríveis 10% (eu acho muitíssimo pra ele), e é o terceiro. Eu rio demais com a propaganda na televisão… uma mulher falando que o espaço é pra discutir e elaborar propostas participativas em saúde, educação, e blá blá blá… aí ela diz tudo outra vez com outras palavras, e depois de novo, e de novo… (engraçado que ela esquece de dizer QUAIS as propostas…por que será?). Daí os candidatos a prefeito e vice repetem o que ela já disse, com a diferença de que pedem licença para entrar na sua casa. Mas tem uma proposta concreta sim, vamos ser justos. A filha do candidato, deputada, diz, no final, que em 2011 Juazeiro vai comemorar seu centenário e PROMETE que “com Carlos Cruz na prefeitura, Juazeiro vai ter uma grande festa!! ” E o chavão é simples “CC é 11. 11. 11 11 11!” Como a musiquinha insuportável que diz “abre. abre. abre, abre, abre”. E eu só digo: Corraaaaa!! Corra, “Corra lola, corra!!”
     Tem a Gorete também, que está com 1%, mas tem aqui seu espaço igual. A campanha mostra na TV uma mulher de fibra, preocupada com as causas sociais. Uma médica atendendo a todos de graça, solidária, que com certeza quer ser prefeita para “ajudar os menos favorecidos”. (Leiam essa frase com tom irônico… e continuem lendo com ironia…). Essa não é apelativa de jeito nenhum!! Na TV, o ex-governador aparece apoiando ela… tudo bem, a não ser o fato que o ex-governador era do mesmo partido da situação aqui. Se revoltou porque perdeu a última eleição, caiu fora do partido, e tá aí… apoiando a Gorete com seus exageros propositais com coisas do tipo: “Juazeiro é a capital do Nordeste, pelas suas romarias…” Ele ama Juazeiro né? Mas num exagera, Dr. Lúcio… Assim fica muito na cara. “O Diabo Veste Prada”…
     Dr. Santana. Líder nas pesquisas com 55%. Será que agora vai? Ou racha? Seria uma chapa da oposição no seu sentido pleno, não fosse pelo seu vice e por muitos que o estão apoiando. Porque hoje todo mundo é PT… (Partido de Todos). O vice do cara é um empresário super-simpático, com um histórico incrível em militância e causas sociais (isso foi irônico) e não entrou na política(gem) pelo motivo da sua empresa não andar bem no mercado e quase falir, claro que não!! Imaginem vocês se é por causa disso!! “É Lula lá e Santana cá, é 13 de verdade” Será? Tomara Dr. Santana, tomara… Tomara que você não esteja na frente por influência do dinheiro da “Umbrella” que é teu vice, com algum projeto macabro aos moldes do T-vírus, para deixar a cidade mais morta e com mais zumbis… “Resident Evil” foi um fiasco! Você viu no cinema né Dr. Santana… Então, por favor… juízo!!!

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´Se é proibido beber e dirigir, por que posto de gasolina vende cerveja?´

4 08 2008

Lei seca: a multa vai ter que pagar

Os donos de bares e restaurantes ainda estão com a notícia entalada na garganta. Já os taxistas dão a maior bandeira, com um sorriso de orelha a orelha, por conta do aumento no número de corridas. Tem até gente pegando carona na idéia, criando serviços de entrega dos pudins-de-cana em domicílio.

É, parece que a tal ´lei seca´ veio para ficar. Que bom. Os acidentes estão reduzindo, as mortes e os palavrões no trânsito também. Pais não perdem seus filhos precocemente, filhos não ficam sem ter para quem dar presente no segundo domingo de agosto, sobram mais recursos para a saúde. Dizem que, em alguns hospitais, dá até para tirar um cochilo, entre um paciente e outro.

Isso faz lembrar a estória do senhor que foi preso após ser flagrado dirigindo completamente ébrio. Os policiais deram voz de prisão imediatamente, disseram que ele tinha direito a um advogado e a um telefonema. Ele não pensou duas vezes: ligou para a farmácia e pediu três comprimidos de Emozec. Coitado, havia comido uma caixa de bombons de licor. Mas parece que, para algumas pessoas, a ficha ainda não caiu.

Os compositores de forró, por exemplo. Já reparou que o papo é sempre o mesmo? ´Beber, cair e levantar´, ´Hoje tomo todas, vou me embreagar´, ´Tô aqui comendo água´, enfim. Com tantos assuntos para abordar nas canções, esses arautos da MPB insistem no tema. Ok, tudo bem, as músicas também não precisam ser assim – favor cantar como se fosse ´Coração´, do grande Dorgival Dantas: ´Detenção / Para quem se embreagou / Por que foi que você foi beber / Agora multa vai ter que pagar´.

Longe disso. Mas existem tantos assuntos, que não custava nada dar uma forcinha para que ninguém encha a cara numa festa e depois beije o primeiro poste que cruzar o caminho. O bom senso agradece. Outra incoerência: se é proibido beber e dirigir, por que posto de gasolina vende cerveja?

Ah, é porque nem todo mundo que vai a um posto está, necessariamente, dirigindo. O Papai Noel, a Bela Adormecida e o Coelhinho da Páscoa também. Ora, ora, ora. Até bem pouco tempo tinha posto de gasolina mais animado que sábado de Fortal com os Bealtes tocando em cima do trio. Mas tudo bem, vamos com calma. Um gole de cada vez.

O primeiro passo foi dado, resta esperar que essa mudança de comportamento continue caminhando firme, sem cambalear, cair na primeira calçada e roncar até o dia amanhecer. Aí sim, todos nós poderemos comemorar. E pode até ser com um brinde mesmo. Mas olhe lá: quem beber… Já sabe.

 
Fonte: Diário do Nordeste
Autor não especificado




Uma doença chamada internet

30 07 2008

 “Agora eu sei e posso saber sobre tudo” é mais ou menos isso o que o internauta pensa desde que teve acesso a todo tipo de informação prestada através de um simples e rápido acesso aos milhares de sites disponibilizados diariamente. Não se pode negar que a internet é um maravilhoso avanço tecnológico que nos abriu as portas do mundo, mas não nos fez tão sábios quanto acreditamos estar. Pelo contrário: às vezes o fácil acesso a todo tipo de informação e orientação é mais um complicador em nossas vidas.

Ao mesmo tempo em que a internet nos permite viajar pelo mundo tem sido também uma poderosa e perigosa arma. Todo dia mais bandidos se especializam em criar novos golpes via internet e por mais que sejamos orientados a não abrir qualquer mensagem ou estabelecer conexão com sites não confiáveis somos assaltados e violentados através da máquina que só é nociva porque é comandada pelo homem – esse homem que continua produzindo guerras, manuseando armas e fazendo de sua própria vida um inferno.

A mesma internet que nos oferece informação, conforto e comodidade comprar, vender, ler e “viajar” é a que nos bombardeia dia e noite com todo tipo de vírus como se fossem novas balas perdidas, na verdade nunca nem tão perdidas assim porque sempre fazem vítimas inocentes. Esse é só mais um dos problemas que criamos simplesmente porque apressados como costumamos ser achamos que podemos e devemos entender de tudo.

Um dos graves problemas criados via internet é a busca à explicação e orientação sobre doenças. A gente ouve falar em algum sintoma ou recebe um diagnóstico laboratorial corre logo até a internet para saber o que a doença significa. Como costumamos nos achar mais espertos do que a esperteza, entendemos tudo errado (quem entende de doenças é médico e assim mesmo nem sempre). Informações médicas são complicadas e deveriam estar restritas aos profissionais especializados. Com ou sem internet, a vida nos tem ensinado uma regra básica: a do cada macaco no seu galho. Toda vez que tentamos pular para o galho dos outros a conseqüência é uma queda e um ferimento desnecessário. É comum criar uma sofrida preocupação por conta de uma informação médica buscada através da internet e o que pode ser uma doença sem a menor gravidade acaba virando prenúncio da morte.

Aliás, esse tem sido também um problema criado nos laboratórios: os pacientes costumam abrir os resultados de exames e sofrem muitas vezes sem motivo: resultados de exames laboratoriais deveriam vir lacrados e entregues somente ao médico que os solicitou que é quem realmente sabe o que está escrito. Talvez, como eu, você já tenha presenciado alguém ficar nervoso e até passar mal ao ler o resultado de um exame que com palavras complicadas. A linguagem médica é estranha a ponto de fazer de uma dor de barriga uma terrível gastroenterite, que, convenhamos, é uma definição realmente assustadora, assim como é a esteatose, (gordura no fígado) um mal que os próprios médicos nem consideram tão grave assim.

Não se deve em hipótese alguma limitar qualquer tipo de acesso aos sites porque seria estabelecer censura e nenhum avanço tecnológico pode nos tirar o que temos de mais precioso: a liberdade. Nós, internautas, é que devemos aprender a nos dar limites, o que significa buscar apenas o que podemos entender para que não nos deixemos influenciar por qualquer tipo de informação. Afinal, ninguém atravessa a rua com o sinal verde para os carros? É esse o tipo de limite que cada um de nós deve buscar para não ser atropelado em qualquer movimentada “esquina” da internet. Estar informado não é uma só uma questão de sabedoria.
* É também de bom senso

Eli Halfoun
Fonte: Tribuna da Imprensa





Trecho do artigo “As atitudes que destroem o rádio”

29 07 2008
     Beto Fernandes, do Blog do Juazeiro, comentou postagem nossa sobre as rádios da cidade e sugeriu a leitura do seguinte artigo, reproduzido aqui em partes e que pode ser lido em seu site, na íntegra, clicando aqui.

As atitudes que destroem o rádio

[...] Nosso povo precisa urgentemente se inteirar do quem vem sendo feito no rádio cearense e lutar pela mudança, pois os problemas que vêm acontecendo são resultantes de um processo de sucateamento e abandono pelos que se dizem proprietários deste meio de comunicação e não investem na conquista de um novo público, não incentivam à inovação e insistem em afastar o ouvinte das rádios, cassando-lhes o direito de dizer o que pensam, de discutir as programações, e de ter participação nos programas para externar suas opiniões e dizer o que pensam dos diversos assuntos da vida social.

A situação em que se encontra o rádio cearense hoje é problemática, pois vemos que há um propósito deliberado de manter este meio de comunicação afastado dos interesses da sociedade e promover uma programação que muitas vezes é completamente alheia ao que o povo quer e deseja do rádio. Nos áureos tempos, o rádio contribuiu para o fortalecimento da democracia e para o fim dos regimes ditatoriais que fizeram parte de nossa história. O rádio tinha a coragem de dizer, de protestar e de lutar contra o regime político que promoveu atraso, dor e constrangimento a tantas pessoas.
Hoje, a situação é diferente. A ditadura imposta é a ditadura do dinheiro e do poder político, que faz com que muitos radialistas utilizem o meio radiofônico para promover aqueles que dominam o regime com suas regras do tipo “toma lá, dá cá” e do estilo “vence na vida quem diz sim”. Temos muitos radialistas que hoje estão muito bem de vida graças às suas relações com os poderosos da política e do empresariado de nossa terra. [...]
A maioria de nossas rádios é controlada por políticos ou pessoas a eles ligados e a comunicação vira uma mensagem de fortalecimento do poder dos ricos em detrimento da maioria do povo. [...]
Outro problema é a prática nefasta do arrendamento de horário, que faz com que muitos radialistas que são profissionais e não se ajustam aos mecanismos de poder fiquem fora do rádio por não poderem cumprir com as exigências dos preços exorbitantes dos horários de programas. [...] 
Os grupos que regulamentam a comunicação (Anatel, Ministério das Comunicações, Ministério Público, Assembléias Legislativas, Câmaras Municipais, governos etc.) precisam fiscalizar as práticas de concessão de emissoras e verificar os verdadeiros donos das rádios, para que estas sejam realmente concessões públicas e satisfaçam os interesses realmente populares. É urgente que se abram espaços para discutir as programações de rádio e fazer com que a voz dos que ouvem rádio sejam ouvidas, pois as queixas são muitas e os canais de discussão estão cada vez mais fechados.
É preciso repensar o modo como o rádio vem sendo feito em nossa terra. Os ouvintes têm se organizado para tal, pois com a criação da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará várias mudanças têm ocorrido, mas há muito ainda para se fazer para fortalecer o papel do rádio na consolidação de uma sociedade efetivamente justa e igualitária. Não podemos aceitar a poluição vinda de locutores que, muitas vezes, não sabem o mal que estão causando, porém colocam seus interesses econômicos em lugar da busca por um mundo melhor para todos.
 
Francisco Djacyr Silva de Souza
Vice-Presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará – Aouvir/CE




Texto da Leitora

20 07 2008

     A leitora do Joaseiro.com Ivone Boechat, PhD em Psicologia da Educação, enviou-nos um belo e interessante texto sobre Educação, que publicamos logo abaixo. Solicitamos aos leitores que se sentirem motivados a escrever que o façam e enviem para o nosso email joaseiro@yahoo.com.br

Ensinar é aprender

Ensinar não é transmitir conhecimentos. O educador não tem o vírus da sabedoria. Ele orienta a aprendizagem, ajuda a formular conceitos, a despertar as potencialidades inatas dos indivíduos para que se forme um consenso em torno de verdades e eles próprios encontrem as suas opções.

A etimologia revela que o substantivo aprendizagem deriva do latim “apprehendere”, que significa apanhar, apropriar, adquirir conhecimento. O verbo aprender deriva de preensão, do latim “prehensio-onis”, que designa o ato de segurar, agarrar e apanhar, prender, fazer entrar, apossar-se de. Ensinar – palavra latina insignīre, quer dizer “marcar, distinguir, assinalar”. É a mesma origem de “signo”, de “significado”.

A principal meta da educação se processa em torno da auto-realização. Logo, ela propõe a reformulação constante de diretrizes obscuras para alcance dos objetivos, comprometidos com a valorização da vida. A educação carimba a sociedade que deseja ter!

O professor, como agente de comunicação, transformou-se num dos mais pobres recursos e dos mais ricos. Quando se imagina dono da verdade, rei do currículo, imperador do pedaço, mendiga e se frustra. Quando se apresenta cheio de humildade, de compreensão e vontade de aprender, resplandece e brilha! Os estudantes estão abastecidos por uma carga de informações cuja capacidade de assimilação nem comporta. O ser humano tem potência de semideus, com emoções de mortal. O avanço da era espacial em que vive tornou o homem angustiado pela consciência de sua fragilidade para absorver e superar os desafios à sua volta.

É mister que se reestruture o conceito de Escola ou se reconheça a sua derrota. Os que nela atuam não podem continuar a caminhar distantes da realidade, em marcha lenta, alheios à corrida veloz de um planeta visível, palpável e cada vez mais próximo. Do jeito que alguns se comportam, concorrem para o fracasso. Repetindo uma expressão muito antiga, “a Escola não sabe a força que ela tem”.

Deve-se abolir, de imediato, a cultura do supérfluo, selecionando conteúdos mais significantes e atuais. Não se pode contribuir para que o desinteresse se instale e, conseqüentemente, esvazie o espaço da aprendizagem permanente. O educador deve se preparar para estar apto perante a onipotência da máquina, e não se assustar com a sua eficiência. Estar sempre atento aos transbordamentos da ciência e não se embrutecer na resposta.

De que valem as “reformas” educacionais, se mudanças radicais não ocorrem? Elas passam, os problemas maiores continuam, gerações se substituem e, no universo de perguntas não respondidas, resultados positivos não se operam, muitas vezes.

Os enlatados culturais intoxicam como os outros, se transformam em “pacotes culturais” e saem por aí, empacotando a sensibilidade, a criatividade, que tanto contaminam a educação. Um exemplo? Entende-se barulho como música! Poesia como cafonice, família como utopia, Pátria como sucata.

Quem ama educa, educar é educar-se a cada dia, sem a pretensão de preparar para a vida. O poder de adivinhar o futuro o educador não o possui. Ele orienta, para que, em situações imprevisíveis, se processem alternativas. Educar não é ensinar, é aprender.

Ivone Boechat – www.iboechat.com.br

 Joaseiro.com





Obrigado, Gilmar Mendes, por soltar Daniel Dantas

12 07 2008

 LIBERDADE É O BEM SUPREMO

Daniel Dantas, gloriosamente em liberdade, é tudo, o rol dos seus crimes não poderia ser publicado, mesmo utilizando um jornal inteiro. Mas uma coisa é irrefutável e irrevogável: NÃO É MENTIROSO. Publicamente, em entrevista vastamente citada, não escondeu, até fez questão de revelar: “Meu problema é na PRIMEIRA INSTÂNCIA. Depois, no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal, resolvo com facilidade”.

O criminoso bilionário, de dentro da cadeia, usando apenas o advogado milionário, resolveu tudo. O criminalista milionário não pode festejar como sua a vitória e a libertação do cliente. Todo o mérito foi desse criminoso-bilionário.

Como um intermediário de luxo, fez apenas uma viagem a Brasília, voltou em alta velocidade para São Paulo, ficou esperando na porta que o cliente, a irmã e o ex-cunhado fossem libertados. O presidente Gilmar Mendes, cuidadoso, colocou “que a ordem de libertação fosse cumprida imediatamente”. Como se alguém se atrevesse a NÃO SOLTAR NA HORA, SEM DEMORA, deixar de cumprir a decisão que libertava um PROTEGIDO da Justiça.

O ministro Gilmar Mendes E-R-R-O-U duas vezes, na véspera e no dia em que concedeu o habeas-corpus. Véspera: sabia que ia julgar o habeas-corpus, não podia dizer coisa alguma, seu silêncio deveria ser total e absoluto. Mas falou, e inconseqüentemente. Textual: “Isso faz inveja ao regime soviético”. Depois, criando até uma palavra: “A ESPETACULARIZAÇÃO da polícia é um fato condenável”.

Vejamos. A polícia não deu um passo sem estar “coberta” pela Justiça. Toda a investigação foi autorizada por juízes, na hora e no dia das prisões. Apenas cumpria mandados de prisão, e busca e apreensão. Essa ESPETACULARIZAÇÃO foi feita pela polícia? Ela não tem canais de comunicação, se a televisão foi autorizada a “cobrir e divulgar tudo”, o que a polícia pode fazer?

No dia seguinte: o ministro concedeu o habeas-corpus que antecipadamente sabia que iria julgar. E ainda avançou por caminhos perigosamente injustos, ao dizer: “Não havia motivo para a prisão”. Quer dizer: para o ministro Gilmar, corromper um delegado, que investigava Daniel Dantas, pagar a ele em parcelas 1 milhão (de dólares ou reais), tudo gravado, filmado, constatado com ORDEM JUDICIAL, não é crime. Tanto dinheiro em casa não convenceu nem empolgou o ministro, que já estava com sua “convicção” firmada.

Deixemos de lado essa jurisprudência firmada pelo próprio presidente do Supremo, de que “CORROMPER AUTORIDADES NÃO É CRIME”, continuemos a examinar a questão, já não mais no âmbito da Justiça.

O que fará Daniel Dantas, agora em LIBERDADE PERMANENTE, só poderá ser preso depois de CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. Viverá tanto tempo? Viajará para o exterior?

Deve ficar no Brasil mesmo, não obterá em nenhum outro lugar a proteção conquistada aqui. Não pode ir para os EUA, lá responde a um processo movido contra ele pelo Citibanque. E se o banco americano vencer, todo o dinheiro que Daniel Dantas ROUBOU a vida inteira não será suficiente para pagar essa indenização. A ligação Daniel Dantas-Naji Nahas surgiu exatamente por causa desse processo do Citibanque. Não podendo ir aos EUA, serviu-se de Naji Nahas, que sabidamente tem as mesmas CONVICÇÕES e FORMAÇÃO, são IRMÃOS GÊMEOS NO CRIME FINANCEIRO.

Foi o próprio Daniel Dantas que levantou a IDÉIA DE QUE estava sendo perseguido POR CAUSA DO MENSALÃO. Idéia brilhante, dele e do advogado milionário. Ontem mesmo revelei, não custa lembrar: NUMA OPERAÇÃO ILÍCITA de quase 6 BILHÕES, Daniel Dantas DOOU a Marcos Valério apenas 132 milhões. Além do mais, o mensalão é recentíssimo, Daniel Dantas é CRIMINOSO FINANCEIRO NOTÓRIO pelo menos há 20 anos.

Naji Nahas e Celso Pitta não entrarão com habeas-corpus no Supremo. Modestos, também indefensáveis como Daniel Dantas, sabem que não ganharão. Gilmar Mendes dará demonstração de firmeza, espírito de justiça e respeito pela Justiça, mantendo os dois na prisão até que o julgamento transite em última instância.

PS - Ave, Gilmar, os que ganharam a liberdade te saúdam.

PS 2 - Daniel Dantas foi solto às 5 horas da manhã e preso novamente às 5 da tarde. Houve desrespeito ao habeas-corpus do ministro Gilmar Mendes? De maneira alguma. Acontece que Daniel Dantas cometeu tantos crimes financeiros, que a cada habeas-corpus corresponde uma nova prisão.

PS 3 - Dantas é tão criminoso, que a cada ano Gilmar Mendes poderá conceder 360 habeas-corpus, que ele será preso outras 360 vezes. Sua quadrilha foi desmantelada, o objetivo de Dantas agora é ver se fica em liberdade pelo menos duas vezes por semana.

Hélio Fernandes

Fonte: Tribuna da Imprensa





Tem Rapariga aí? (II)

7 07 2008

     Abaixo reproduzimos um comentário que nos foi enviado por um leitor do Joaseiro.com em resposta ao artigo “Tem Rapariga aí? – O império das bandas de forró”, de José Flávio Vieira.

     Agradecemos ao leitor Petrônio e a todos que comentam os textos do blog, colocando-nos à disposição para publicar as opiniões dos leitores.

Tem Rapariga aí? (II)

Cheguei hoje de Fortaleza, que se diz a cidade da luz. Fiz uma viagem a trabalho. A noite, sai com uma amiga de trabalho da empresa pernambucana que presto consultoria na sua filial fortalezense.

No hall do hotel perguntei onde poderíamos ir. Queria um lugar onde cearenses gostassem de freqüentar. O recepcionista do cinco estrelas me deu um cartão que daria um drinque grátis em “um tal” Croco Beach. Chegamos cedo. Muitas famílias de turistas e pessoal da terra. Parecia que a noite seria uma maravilha.

Pedimos caranguejos, casquinhos, uma cerveja e eu uma dose de uísque. Tomei a primeira dose como se água fosse. Achei estranho o uísque tão suave já que era um Johnnie Walker 12 anos.

Acabada a primeira dose, minha colega comentou que a comida estava péssima. Eu não comi o caranguejo, comi o tal casquinho, uma comida horrorosa.

Mas já que estávamos ali, vamos ver a apresentação do humorista que faria um show. Outra péssima idéia. O humorista apelou, chamou palavrões, brincou grosseiramente e preconceituosamente com as mulheres e não respeitou nem mesmo o monte de crianças que ali estavam. Mas o pior ainda estava por vir. Pedi a segunda dose de uísque Johnnie Walker Red. Levantei-me para ver quem era o tal humorista, já que falam tanto dos humoristas cearenses. Apesar de bem trajado para o show, a qualidade artística era péssima.

Quando o garçom chegou, eu estava ainda em pé e observei que o dosador brilhava muito. Mandei o garçom esperar que eu queria ver o dosador. Ele tentou apressar-se para colocar o uísque. Eu tapei o dosador com a mão e retirei-o do copo que serve o uísque. Para minha surpresa (surpresa?), metade do dosador já estava com água.

Chamei o gerente e fiz uma confusão. Ele quis colocar a culpa no garçom. Perguntei como era controlada a garrafa e descobri que o controle era do bar e não do garçom e quem controlava o bar era uma pessoa vestida de vermelho… igual ao gerente (o garçom veste amarelo).

Conclui que aquilo era prática normal que visa lesar o turista – que chega e vai embora e nunca mais reclamará. É essa a tal cidade que é a cidade do turismo? Só aconteceu comigo? Só aconteceu nesse tal CrOCO Beach? Mas não acabou. Aquilo que já tinha visto em Natal, quando fui a um bar indicado pelo hotel e o bar estava lotado de garotas de programa, também iria acontecer em Fortaleza.

A noite que começara com famílias, crianças, turistas alegres foi mudando e, aos poucos, mais de uma centena de gringos estavam na casa. Simultaneamente, chega mais de uma centena de garotas desacompanhadas ao bar para assistir ao show de uma banda de qualidade duvidosa que tocava músicas de baixa qualidade… “chupa que é de uva”, “tem rapariga ai?” e a resposta delas era: TEM… e os gringos respondiam com urros e sons indecifráveis.

Os gringos que já estavam no lugar, facilmente, sentiam-se atraentes, bonitos, sensuais. Logo, logo deixavam as garotas apaixonadas. Mas tão rápido assim? Os gringos que mal conseguiam se comunicar-se “enturmavam” e beijavam as meninas apaixonadamente.

Aquele clima pesado nos forçou a fechar a conta e pedir um táxi para voltar ao hotel. No táxi perguntei ao taxista o que era aquilo e sem pestanejar ele respondeu: “ali só tem rapariga doutor”. Ai eu entendi que a resposta ao cantor era correta… ali tinha muita rapariga mesmo.

Agora entendo que não é a toa que Cyro Gomes foi a TV em Fortaleza dizer que Fortaleza é um “puteiro a céu aberto”. É uma pena que uma cidade tenha se “adaptado” a realidade desse tipo de turismo.

Petrônio Martins Barreto – Consultor de Informática

Joaseiro.com





Exposição do Crato

6 07 2008
     O Cariri ainda investe como celeiro do Ceará e reduto cultural de homens que sabem o que querem e como consegui-lo. É histórico. Em 1703, povoadores vindos da Casa da Torre, na Bahia, sensibilizaram-se com o abraço majestoso da serra do Araripe e aplicaram dinheiro em ´rotear´ suas terras e depois solicitaram do rei as sesmarias, como fizeram Antônio Mendes Lobato o Manoel Rodrigues Ariosa. Ali nasceu o Crato já revestido de encantos naturais e área propícia à agropecuária, ponto de apoio às primeiras famílias que implantariam uma sociedade de cultura portuguesa naquele recanto de Nordeste. Ali nascia o padre Cícero em 1844 e figuras mudancistas, inteligentes e revolucionárias. Continua assim. Dir-se-ia que o Seminário do Crato, inaugurado em 1873, seria o primeiro núcleo de ensino preparatório onde a juventude interiorana estudava o Latim, Grego, Italiano, Literatura Portuguesa e Teologia, de nível acadêmico para o sacerdócio, ou formando parte da intelectualidade cearense como semente para a futura Universidade Regional do Cariri. Crato abriu caminho ao desenvolvimento regional sem perder espaço na garantia de suas tradições econômicas e sociais, criando colégios e exibindo sua primeira exposição agropecuária, em 1944, na gestão do prefeito Wilson Gonçalves. Neste período, de julho de 2008, a Expo-Crato detém um parque expositivo agropecuário abrangendo participação de todo o Brasil, de grandes negócios, atraindo turistas que se encantam pelas atrações naturais, clubes recreativos, diversões, muita envolvência sócio-cultural e a hospitalidade dos cratenses. Restaurantes qualificados, shows musicais, realçando-se a elegância feminina e, nas palestras culturais, a lembrança do consagrado poeta popular cratense Zé de Matos, nos idos do século passado, quando improvisava: ´Na serra do Araripe, tem mangaba e tem pequi. Tem muita moça bonita e cabra bom no fuzi. Mas, em redor de quatro léguas, tem cabra fio duma égua que ainda nega um pequi´. Vale como refrigério ao corpo e à alma uma visita à Exposição do Crato, neste meado de julho, sobretudo pelo seu aparato antológico.
 GERALDO MENEZES BARBOSA
Jornalista e escritor
Fonte: Diário do Nordeste




Um século sem internet?

30 05 2008

Sem Internet

(por J.Matias de Oliveira)

Primeiro que a integralidade deste texto estaria comprometida em um século sem computador nem Internet. O distinto leitor talvez o encontrasse subscrito numa folha de papiro tão comum aos tempos de quando o velho Machado escrevia para a Tribuna do Rio de Janeiro. O fato é que cortes de energia acontecem nas melhores residências, dos melhores clientes (para tudo, menos pagar em dia), porém nos piores dias. A pena-tinteiro era a preferência maior do Fernando Pessoa, e séculos depois para alguns como Monteiro Lobato também o seria. Da maioria dos escribas contemporâneos não se ousa imaginar discorrer essas mal engajadas palavras sem o auxílio do teclado, mesmo aquele dos tec-tecs românticos à la máquina de escrever Olivetti de um Nelson Rodrigues, Rubem Braga ou Paulo Mendes Campos, dentre outros jornalistas que o tempo engoliu e jogou-nos somente a parte que foi tocada pelo teclado e não materializada em outra forma senão nos livros que deixaram. Foram-se os teclados formato Olivetti, ficaram as palavras e bilhões de escribas virtuais ainda dependentes de blogs, notebooks, Internet e outras torturas da temporalidade volátil nesse mundinho mais ou menos.

Várias vezes pensei, diante do mesmo computador (minha tortura e meu salvador), que os tempos modernos são nada mais que um armistício para a sem-que-fazeria. É divagando em poucas horas de abandono das atividades externas que passo neste bendito meio multimedia sem ver a chuva escorrer pelo mundo afora, sem notar os pingos que caem. Nesses momentos tem-se a impressão de que os séculos passados foram regados a produções massivas de vinho, espetinhos de animal e festas, muitas festas, para suprir a falta das pequenas confraternizações individuais que se dá entre as paredes azuladas do orkut e estas de cimento e tijolo que cercam o quarto solitário.

Imagino-me sem internet, sem computador e sem luz, e a vaga luz bruxuleante da lamparina acesa sobre o papiro fazendo contornos de sombra ao rés do papel. A pena de minha caneta-tinteiro escorre avidamente encaixando palavras perdidas nos dicionários e expressões advindas do meu cotidiano na corte de um rei tirano, desses de contos de fada. Escrevo para ninguém. Porém, escrevo, escrevo, escrevo. E as palavras soltam-se como estas que vão se soltando aqui e agora, sem objetivo, assemelhando-se em parte às rotineiras rodadas de café de que Balzac se utilizava a cada noite para abastecer seu robusto currículo de títulos concebidos pelos roncos do estômago e furos do bolso de trás das calças. O cara escrevia para comer, como pode isso no século XXI?

Em certo momento, paro de escrever essas linhas pretensiosas no papiro, amasso e ponho todo o trabalho fora, no lixo. Do restante faço picotes ao tamanho dos três dedos, indicador, maior-de-todos e catapiolho. De um escrevo recadinho para o Maurício, meu chegado dos tonéis de rum ali da tabernaria. E o moleque auxiliador vem pegar, disposto a umas pratas a mais no calção sujo. Dez minutos depois, a resposta. Hum! O viado não quis vender 12 copos por dez cruzados reais. Rapidamente, outro bilhete vai pelo moleque. E recebo a resposta, que conduz a outra. E outra. E mais outra.

Dona Amélia da faxina na igreja barroca entra na jogada, e em vez de bilhetes utilizávamos as folhas do papiro inteiras. Cada um com a sua, coletando mensagens, transcritas sempre após o nome de um e de outro. Havia uma folha específica para cada contato. Seu Maurício vai em duas folhas, com respostas deles e minhas seguidamente, assim em fileira. A certo momento, D.Amélia pede licença para reescrever não só em suas folhas de recados particulares, mas também, e ainda, no contato entre mim e Maurício. Estabeleceu-se uma rede de moleques que ligavam nossas residências a nós próprios, e as interligavam fazendo contatos e convites às casas das redondezas. Agora, três ou quatro faziam o serviço, cobrando algumas pratas pela entrega e recebimento das folhas.

Por um dissenso de organização ou não, os moleques começaram a se enganar nas folhas de recados. Entregava a de Maurício que ia para Fernanda para Amélia que queria receber de Eduardo. Uns diziam que se tratava apenas de confusão no recebimento e entrega, outros eram da opinião de que se pagava por aquele absurdo. Quer dizer, ao se ouvir a palavra “absurdo” nem todos concordaram, nem tantos sorrisinhos apareceram nos cadernos de recados que já iam em cerca de 20 contatos cujo título no começo de um certo caderno havia inscrito “Vila Del Rey”. Os mais das outras folhas comunitárias tiveram acesso às da comunidade que se formara, e resolveram nomear a sua como “Vila de São José Del Rey”.

Rodavam os recados, de casa em casa. Os que ousavam sair das casas eram para locais pré-combinados através das folhas, o qual o taverneiro ou dono de outro estabelecimento já sabia de antecipação, se não diretamente, indiretamente pelas bisbilhotagem de folhas clandestinas. Foi nessa que souberam os clandestinos por fora da rixa entre os da Vila Del Rey e o pessoal da outra. Descobriram até mesmo que pretendiam mudar o nome de “Vila Del Rey” para “Discípulos Del Rey na Vila Abençoada”. Alheios a tudo, os jovens enamorados contaminados pelo amor romântico trocavam sonetos de Camões e Shakespeare por suas folhas particulares (elas também caindo nas mãos de oportunos), e logo reivindicaram uma folha comunitária para seu amor franco tornar-se cada vez mais público. E criou-se a folha “Namorados de Del Rey”. Não a única. Os taverneiros queriam trocar informações sobre os devedores de bebida nas esquinas de cachaça espalhadas pela Vila com a folha “Cobradores e taverneiros: uni-vos”. Depois, a réplica, “Devedores e sinceros: pague-se quando puder”. As fofocas estavam em moda, e Dona Amélia da igreja barroca separou uma resma inteira de papiro para “Mitos e Fatos na Vila Del Rey Atual”. A rede de moleques crescia, a produção de folhas também.

Uma semana após meus pensamentos pessimistas sobre viver num passado onde não houvesse Internet, regado a vinho suspeito e literatura barata, estava agora encharcado de cadernos e mais cadernos que circulavam toda a Vila Del Rey, os povoados vizinhos e, talvez, até a corte e a abrangência de metade do Estado. El Rey, o rei de fato, sabe-se por intermédio de cortesãos, já possuía seus cadernos de recados para a família, os pares e integrantes da casta maior do reino. Os mais corajosos arriscam as cabeças em dizer que El Rey possuía várias identidades entre os cadernos de recados dos servos e comuns do povo. Ora mulher, ora homem. Encontros inusitados com ambos. El Rey, El Safado?

Que vida. Penso agora em rasgar meus caderno e com eles minha identidade nas trocas de folhas comunitárias. Ora, pois já não se tinha distinção das comunitárias e individuais. A cada mensagem, a sensação da devida interceptação por todos que conheciam e sabiam da existência de minha identidade nos cadernos que circulavam a vila. Muitos são os pedidos por se coadunar e transformar aquele num mesmo caderno de recados e mensagens, um coletivo. Aos montes, como que por convites de Fulano e Sicrano. A vontade de rasgar os cadernos e voltar ao tremeluz da literatura de lamparina me tenta. Porém, não penso nisso agora. Continuo lamentando sob a noite abafada pelo quarto fechado a ausência de um contato virtual com o resto do mundo.

(Joaseiro.com/jotamatias.com)





O Império das Bandas de Forró

15 05 2008

TEM RAPARIGA AÍ? – O Império das Bandas de Forró


Tem rapariga aí? Se tem levante a mão!”. A maioria, as moças, levanta a mão.

Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, e todas bandas do gênero). As outras são “gaia”, “cabaré”, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.

O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhando uma música da banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de “forró”, e Ariano exclamou: “Eita que é pior do que eu pensava”. Do que ele, e muito mais gente jamais imaginou.

Pruma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.

Porém o culpado desta “desculhambação” não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de “forró”, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético,. Pior, o glamur, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina “forró estilizado” continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem “rapariga na platéia”, alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção ?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é “É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!”, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.

José Flávio Vieira, Médico e Escritor

Fonte: Artigo Publicado no Blog do Crato





Assassino… Assassina!

30 04 2008

Assassino… Assassina!

        Desde o final de março não se fala em outra coisa… e o brutal assassinato da garota Isabela Nardoni realmente merece toda a repulsa da sociedade. No entanto, todos os dias observamos determinados comportamentos da população em relação a esse homicídio que são claramente induzidos não apenas repugnância que o caso merece, mas pela cobertura distorcida (em quantidade e em qualidade) da mídia.

         Após o acontecimento, a maior parte da imprensa não se limitou a informar o andamento das investigações, cobrir o trabalho da polícia; tampouco vemos os meios de comunicação exortarem a sociedade a refletir a respeito da banalização da violência. Em vez disso, muitos órgãos extrapolam os limites da ética jornalística e confundem seu papel: passam a ser também investigadores do caso. Assim, todos os dias anuncia-se uma nova entrevista com “uma testemunha-chave”, seja ela o vizinho de baixo do apartamento, alguém que mora no prédio dos fundos, o porteiro do edifício vizinho, a amiga da irmã do pai, o cachorro que passava na calçada na hora do assassinato… Todos esses “furos” que são anunciados como matérias “exclusivas!!!” acabam por gerar uma competição desenfreada por “novas informações”, sejam elas novas mesmo, ou apenas os mesmos dados repetidos a todo momento ou, pior ainda, novas suposições do apresentador que se acha mestre em investigação criminal e já possui toda a trama solucionada.

E não pára por aí: cinegrafistas fazem plantão para flashes ao vivo da delegacia, do IML, da cena do crime, da casa dos avós, da escola de Isabela… fotógrafos se acotovelam pelo melhor ângulo, pela foto exclusiva… repórteres fazem de tudo por uma nova declaração de seja-lá-quem-for. Nesse ritmo frenético, o caso não sai de cena. Canais de televisão passam horas repetindo o que todos já estão cansados de saber. Do programa de culinária e “variedades” aos telejornais propriamente ditos, os apresentadores apenas de revezam no papel de manter o caso em evidência. Pessoas param suas vidas para acompanhar a trama. Uma trama, isso mesmo. A cada novo telejornal, um novo capítulo da novela criada. A cada flashe, um novo desenrolar, uma nova expectativa é dissipada e muitas outras são geradas, para que o espectador-expectador continue ligado na telinha. “Não saia daí, já já mais informações exclusivas sobre o caso Isabela”. Realidade e ficção se confundem nesse jogo perigoso.

Pessoas foram para a porta da delegacia ou para qualquer lugar para onde o casal Nardoni estivesse para gritar “Assassino! Assassina!”, antes de qualquer informação oficial. Só algum tempo depois, a polícia indiciou o casal, após as dezenas de depoimentos, laudos técnicos da perícia e demais elementos da investigação mostrarem que, ao que parece, o pai a madrasta são realmente os autores do horrível crime. Mas antes disso, o perigoso pré-julgamento estava feito. Populares aos montes com seus celulares-que-batem-foto e cartazes de protesto aparecem nas reportagens, seja dando suas “opiniões” (nada mais do que a repetição do que a TV diz diariamente), seja dando tchauzinhos por trás dos repórteres.

Tal papel a que a imprensa está se prestando, faz lembrar a época da censura da ditadura militar, pois existem dois tipos de censura: a da pouca informação e a da informação abundante. Na primeira, a de ontem, os cidadãos permanecem desinformados simplesmente por não terem acesso ao que se passa. Na segunda, a de hoje, permanecemos ignorantes devido ao excesso de notícias que nos atiram à cara a todo momento. Permanecemos grudados na novela da realidade, esperando o próximo capítulo, e não temos como pensar, refletir sobre o que se passa. Dormimos e acordamos recebendo passivamente tudo que jogam na nossa cabeça. E nem sequer paramos pra pensar de onde vem essa violência desenfreada e quem ganha com sua espetacularização.

Por Sávio Samuel

(Publicado também no Jotamatias.com)