Para dar início à semana em que comemoraremos 1 ano de Joaseiro.com, hoje estreamos uma nova coluna, a do pernambucano Guilherme Patriota, que já era nosso leitor e comentarista assíduo. Guilherme publicará contos e reflexões sobre artes em geral. Deleitem-se!
Conto de Parágrafo Único:
Tradição é Tradição
Na Itapetim de minha infância, moral e tradição sempre andavam juntas, e deviam ser interpretadas de acordo com nossos próprios sentidos. E nada mais tradicional do que a bodega de seu JS. Lá, nas quartas-feiras, dia da feira da cidade, todos se encontravam para comprar seus mantimentos ou mesmo para encher a cara ou simplesmente para observar os sitiantes que só apareciam naquele dia para fazer negócios e também suas feiras semanais. Mas para nós moradores da rua – como lá se dizia – a tradição era o queijo de manteiga fresquinho, que chegava pontualmente às 7h da manhã, e que era consumido por todos os habitantes daquela localidade. Seu JS nunca ficava pela manhã, apenas abria a bodega e ai acordar P, seu neto, que preguiçoso que era, vinha ainda sonolento tomar conta do negócio da família. Na minha casa, que tradicionalmente eu não tomava café da manhã, todos adoravam queijo de manteiga, principalmente no desjejum quando o queijo ainda estava quente e não precisava nem esquentar o pão para consumi-lo. Sendo eu o filho homem mais velho, meu pai sempre me atribuía a função de ir buscar o queijo fresco na bodega de seu JS, motivo este para eu nunca querer engolir aquele alimento tão tradicional na rotina alimentícia de nossa cidade. Diariamente a cena se repetia. Chegava eu na bodega e estava P sentado, com os joelhos junto ao rosto, meio acordado e meio dormindo, com os olhos cheios de remela e o nariz sempre escorrendo pelas duas narinas, esperando que qualquer freguês lhe acordasse para fazer seu pedido. O queijo, objeto de maior desejo de todos, geralmente, ficava em uma mesa logo a sua frente para facilitar a movimentação e para que o mesmo voltasse a cochilar mais rápido no intervalo entre um freguês e outro. Quando eu o chamava ele sempre dizia que não estava dormindo e, quase que mecanicamente, punha sua mão sobre a mesa, puxava o pano que cobria o queijo, passava em seu rosto, retirando todo aquele excremento que ali se encontrava, pegava a faca com a outra mão e limpava-a com o mesmo pano e me perguntava quantos quilos queria. Eu dizia a quantidade, ele cortava, pesava, embalava com um papel de embrulho e me entregava para que minha família pudesse tomar deliciada seu café da manhã. Certo dia, enojado com a situação e, principalmente, porque P estava extremamente resfriado, escorrendo rios de catarro por suas narinas e, ainda, resolveu limpar a parte superior do queijo com aquele mesmo pano que limpava seus excrementos, dado que era época de chuva e as moscas tomavam conta do local, resolvi perguntar se ele não se sentia mal por praticar tamanho ato anti-higiênico e o mesmo respondeu: “- Meu amigo, tradição é tradição! Você está querendo questionar a moral higiênica deste ambiente que alimenta toda uma cidade?” Sai de lá todo desengonçado e resolvi, pela primeira vez, comer aquele tão tradicional queijo brasileiro, realmente brasileiro, verde e amarelo.
Guilherme Patriota
Recife, 13 de fevereiro de 2009
Joaseiro.com
A música para mim sempre foi e será uma experiência de estar conectada a outra realidade, sair desse mundo e entrar em outro. Para que eu consiga escrever sobre música tenho que estar conectada a ela, quase que 24 horas do dia, sentindo vontade de escutá-la e fazer dela praticamente um mantra. Peço desculpas se sumi por esses tempos e conseqüentemente não dei continuidade à série “a nova cara da música mineira”. Não que eu tenha parado de escutar música mineira, muito pelo contrário, acabei descobrindo novos “sons mineiros” e espero que em outras oportunidades possa compartilhar com vocês, mas a vida de estudante, fim de semestre, dona de casa e moradora temporária em outro Estado me consumiu. Mas cá estou de volta e vamos parar com explicações, porque meu negócio por aqui é inventar que sei algo sobre música.





O CD de estréia em 2006, homônimo, possui 11 faixas autorais e uma versão à capela (be-lís-si-ma!) de “O Mestre Sala dos Mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, conta com uma porrada de gente muito boa entre instrumentalistas e compositores, dos quais destaco o compositor brasiliense Magno Mello, que juntamente com o Pedro assina nada mais, nada menos, que 8 das 11 faixas autorais (tem uma música do Magno Melo disponível em:
Comentários