O Diário do Nordeste, edição de ontem, fez boa entrevista com o artista de Juazeiro Geraldo Júnior no seu Caderno 3. Vejam só:
Caminhos da música cariri
Ex-integrante do Dr. Raiz, um dos grupos mais representativos do atual som do Cariri, Geraldo Júnior conversou com o Caderno 3, durante a Mostra Sesc. Em pauta, sua atual carreira solo no Rio de Janeiro, o CD ´Calendário´, a convergência estética – e a pluralidade – dos músicos do Cariri e os desafios desses artistas em busca de maior repercussão.
Como é estar de volta ao Cariri pela primeira vez, após a mudança para o Rio de Janeiro?
A oportunidade de vir ao Cariri surgiu quando nos agregamos ao grupo de teatro Filhotes de Leão, dirigido por Sidnei Cruz. Fizemos as músicas pra um espetáculo deles, com um texto do Arthur de Azevedo, e estamos gravando um disco com esse trabalho. Se não fosse isso, a gente não tinha vindo. Não que a gente não quisesse, mas a gente não chegou a mandar material (para a seleção da Mostra), porque não daria tempo de preparar o show novo. A gente lançou o disco (´Calendário´) agora, e tá fazendo a divulgação lá no Sudeste. Com esse trabalho, a gente não teria como se bancar pra vir pra Mostra este ano. Estamos no Rio faz cinco meses, mas ainda é um período de adaptação. Tínhamos planejado ir pra São Paulo, mas começaram a aparecer coisas no Rio, e fomos ficando, eu, Ranier (Oliveira, acordeonista e pianista) e Flauberto (Gomes, percussionista). Naturalmente, a gente ficou muito feliz de estar no Cariri, com essa oportunidade. Eu tô desde a primeira Mostra, ou produzindo, ou me apresentando.
Como é que vem sendo o dia-a-dia no Rio? E o espaço para o trabalho tem surgido como vocês imaginavam?
Estamos morando perto da Lapa, tem uma movimentação, dá pra ir pra lá a pé, quando a gente vai tocar. E os espaços têm surgido. A gente se apresentou no Sesc, nos espaços da noite, com o projeto paralelo Forró de Raiz… Fizemos o show do CD na Livraria Saraiva, tocamos no Circo Voador no Tangolomango, no Rio Cenário, no Democráticos… Temos gostado. É muito bom pra gente, pelo lado profissional, mas o trabalho da gente tem muito do Cariri, e a gente sente muita falta daqui.
A concorrência lá também é bem maior…
Sem dúvida. Lá a gente tá disputando espaço direto com os nomes nacionais. Tocamos onde Alceu, Cordel, Geraldo Azevedo toca. De lá a gente já tem amizade com o Yamandu. Existe essa proximidade. Mas a gente saiu daqui sem essa falsa idéia do Sudeste. Foi mesmo na necessidade de dar uma saída. É óbvio que lá é o centro do País ainda, pelo vetor de trabalho, mas a gente chegou sem deslumbramento. E lá a gente vê que o nível técnico, inevitavelmente, tem que subir muito. Tudo, do palco ao material que a gente manda pros projetos, tem que ter muita qualidade. Levando isso em conta, acho que o disco tá sendo bem recebido. Ainda não temos um produtor só nosso, mas é uma função que nós também fazemos, eu já tinha essa experiência, já viajava. E todo mundo tem nos recebido bem.
O Dr. Raiz, no show na Mostra Sesc, fez questão de homenagear você. Olhando de hoje, você vê a sua saída da banda como inevitável? E o que você achou do show?
Rapaz, eu cheguei na hora, fui direto pro show, mesmo vindo da maratona do Tangolomango. A saída do grupo foi mesmo uma necessidade do trabalho. Foram quase 10 anos de convívio, ou até mais. Aí foi bem difícil, uma separação mesmo. A questão maior pra sair foi a impossibilidade dos meninos viajarem. Até querer eles queriam, mas não podiam. E aí a gente não tinha como crescer. Eu tava me achando limitado, porque tava desgastando, o mercado é muito fechado. Até antes a Secult tinha um circuito de eventos em todas as regiões, e aquilo nos ajudou muito, por muito tempo. Depois disso a gente tinha planos de viajar, mas passou a haver dificuldades, inclusive nas composições e tudo, em função dessa coisa, dos meninos não terem condição de parar. Tanto que, com a minha saída, os meninos tão gravando o disco novo, mas dentro do tempo que eles têm. E eu parei faculdade, parei tudo. Hoje não tenho casa, vendi minha moto pra pagar o disco. Eu conversei, disse que entendia a situação, mas que eu tinha trabalhado pra isso. E aí, com toda a dor no coração, saí e depois encontrei outras pessoas a fim de viajar. A idéia era montar outro grupo, mas, como não tinha músicos fixos, usei o Geraldo Júnior, até pra diferenciar do (guitarrista cearense) Júnior Boca (nome utilizado também por Geraldo Júnior, quando integrante do Dr. Raiz). Quanto ao show deles, eu gosto muito do trabalho, mas acho que falta uma pessoa pra dar uma movimentação maior, cantando. Até falei com o Dudé, que as pessoas sentem falta disso. Os meninos estão em processo, mas eu gostei do show. Estou torcendo por eles.
Hoje, nos seus shows, você conta com o Ranier e o Flauberto…
É verdade. Inclusive o Beto Lemos, do Carroça de Mamulengo, que também foi do Dr. Raiz e do Zabumbeiros Cariris. E quando a gente faz o show do CD, que pode bancar todo mundo, tem também o Antônio Queiroz, o Beto Lemos e o Francisco Gomide, do Carroça, mais eu, Ranier e Flauberto. Viola, violão, rabeca, flauta, zabumba, baixo.
Que avaliação você faz dessa geração de vocês, do Dr. Raiz, do Zabumbeiros, de outros cantores e compositores do Cariri? Que acertos e erros cometidos você enxerga?
Não posso dizer que essa visão é só agora, que a gente tá fora, mas por essas viagens todas que a gente fez. Essa coisa de sentir saudade, de não romper essa ligação direta com a região, porque indireta a gente sempre tem, o nosso trabalho é musica caririense. Chamamos de música cariri, porque a essência da música tá aqui. O que posso dizer é que tem uma galera fazendo uma musica nova, fora do clichê de música de raiz. Sabendo que fazer música de viola, de pífano, não é a única verdade. E nossa ideologia é fincada na realidade da gente, com essa grande diversidade cultural – e não apenas ligada à cultura popular tradicional. Mas esses trabalhos, Zabumbeiros, Dr. Raiz, Luciano Brayner, Ermano Morais, a gente, o Ranier, o Flauberto como instrumentistas, o Beto Lemos, o Carroça, um trabalho mambembe mas que hoje se pode dizer que é do Cariri, todo esse pessoal eu acho que o que tá fazendo de certo é ter humildade. E cabeça aberta, no mundo. O pessoal já teve oportunidade de viajar também. E mesmo os que optaram por ficar aqui, ou não puderam viajar, estão trabalhando, mesmo com toda a dificuldade. Não existe um mercado consumidor, pra gente poder montar um show, gravar um disco, fazer esse show e começar um novo ciclo. E mesmo assim o pessoal continua. Mesmo quem não é ligado à cultura popular, como o pessoal do hip-hop e do rock que fala do Cariri. E a gente tem contato com trabalhos como o do Abidoral (Jamacaru), o Luís Fidélis, o (Luís Carlos) Salatiel, o Zé Flavio, Dihelson Mendonça, Ibbertson Nobre… A gente vem crescendo junto com esse pessoal.
Mas também se percebe nos músicos locais um olhar crítico em relação à própria Mostra Sesc. Há queixas sobre diferenças de cachês, horários, espaços de shows, em relação a artistas de fora. Como você analisa essas reclamações?
Eu sempre digo que tem uma galera que vem trabalhando há mais tempo, mas se você pegar esses 10 anos de Mostra, com certeza a formação de público pro artista local é uma coisa antes e outra coisa depois da Mostra. Acho que a classe artística caririense ainda precisaria ter mais representatividade. As festas da região, antes todas tinham espaço pros artistas locais. Hoje não é assim. Falta sensibilidade dos produtores, das prefeituras. E a classe artística cearense poderia estar melhor organizada para cobrar esse espaço. Houve uma época em que tava acontecendo muita coisa e a gente tinha mais contato com Fortaleza, principalmente ali no Movimento Cabaçal (início dos anos 2000), que a gente conquistou muita coisa. Havia comunicação entre os grupos, e o público de todo mundo se juntou. Agora, uma entidade como o Sesc, eu acho que eu sou suspeito pra falar, mas eles sempre tiveram muito carinho com o pessoal daqui. Uma coisa que vejo como produtor e cidadão é que muitos artistas ainda não conseguem acompanhar a coisa da produção, de ter um ´release´, ter um material, um show preparado. O cara que se apresentou ano passado critica porque não entrou este ano, mesmo sem ter mandado um projeto novo. Às vezes eu tava na Mostra e chegava um artista daqui no último dia de inscrição, ou já depois do prazo, com um ´release´ manuscrito, pra se inscrever. A gente ficava até triste, ajudava, digitava. Mas essa dificuldade é porque não existe mercado, nem políticas públicas, pra que isso se desenvolva, pra que o show possa ser apresentado, que o artista possa ter um retorno financeiro. Só existe a mostra, o BNB e um ou outro evento escasso. O Sesc ainda tem uma série de atividades, que na verdade culminam na Mostra. Os cachês são baixos, mas não são distantes do que o BNB, por exemplo, paga em Fortaleza. Pra mudar isso, não vejo que seja uma questão apenas do Sesc. Inclusive existem artistas que criticaram a programação em outros anos, foram convidados pra fazer a curadoria e não aceitaram, porque sabem do peso que é, da responsabilidade que vão ter que enfrentar depois. Mas a questão maior é da nossa organização pra construir esse mercado.
DALWTON MOURA
Repórter – Diário do Nordeste
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